Artigo: a ficção e a luta LGBT

Lembro perfeitamente da tarde que assisti pela primeira vez O segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee. Após dias fazendo o download do filme entre meia-noite e seis horas da manhã, com internet discada, fiquei sozinho em casa e fui apresentado à história de amor de Jack Twist (Jake Gyllenhaal) e Ennie Del Mar (Heath Ledger). Quando os créditos finais subiram na tela do computador, comecei a chorar compulsivamente. A sensação era de que aquela dor ia me consumir por completo. Era quase insuportável.

Eu era um adolescente completamente aterrorizado com a própria sexualidade, fruto de uma criação em uma sociedade heteronormativa, conservadora, opressora. Todavia, por mais que ainda fosse negar por algum tempo ser gay, o drama homossexual teve impacto significante nas mudanças internas que ocorriam. Para quem é marginalizado, representação faz muita diferença. O aumento de personagens LGBTs no cinema e na televisão contribui imensamente para a modificação de valores, a aceitação e o combate ao preconceito.

Atualmente, no Brasil, um cidadão LGBT é assassinado a cada 25 horas por causa da sua orientação sexual, conforme dados do Grupo Gay da Bahia (GGB).  Além disso, há um verdadeiro genocídio de mulheres transexuais e travestis. A transfobia faz com que a expectativa de vida delas não ultrapasse 35 anos.

Nesse cenário desolador, a inserção da diversidade na ficção é primordial. Quebrar padrões em histórias que impactam milhões de pessoas acarreta em uma maior conscientização das agruras que parcela significativa da população passa diariamente.

E, felizmente, há um crescimento de personagens marcantes na televisão, que invadem dramas e comédias, séries, minisséries e telefilmes. Eles se descolam cada vez mais de uma representação que apenas reforça estereótipos e abraçam a pluralidade do ser.

Como não se emocionar com a comédia dramática Transparent, de Jill Soloway? A história da transexual Maura é dotada de uma sensibilidade incrível, repleta de nuances. E como não rir com Please Like Me, do australiano Josh Thomas? A produção aborda assuntos polêmicos com uma naturalidade apaixonante. Sense8, das irmãs Wachowski, é praticamente um grito pela liberdade de ser quem você é. When We Rise, de Dustin Lance Black, reconta toda a trajetória de luta do movimento LGBT.

Os exemplos não param por aí. Titus Andromedon é a alma de Unbreakable Kimmy Schmidt. Piper e Alex vivem seu bad romance em Orange Is the New Black. Francis Underwood também se relaciona com homens em House of Cards. Lionel tenta entender sua sexualidade em Dear White People etc.

É interessante que não apenas cresce o número de personagens, eles também têm histórias mais fortes e sinceras. Seus desejos não ficam subentendidos, algo muito comum no passado e ainda usado em algumas produções. Pelo contrário, estão cada vez mais expostos em tramas sem medo de revelar a verdade com todas as letras.

Uma abordagem mais madura e libertária dá coragem ao telespectador, reconforta, traz a sensação de pertencimento. A ficção é um importante aliado na construção de um mundo melhor, e não podemos deixar de lutar pelo direito vivermos plenamente nossas verdades.

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