Crítica Transparent S3: uma obra-prima

Quando conhecemos Maura, nem ao menos os seus filhos sabiam de sua existência. Ela estava aprisionada num corpo que a sufocava por causa do preconceito. Sua essência, por décadas negada, teimou em sobreviver. Não apenas resistiu, mas se fortaleceu. Tanto que reclamou direito ao próprio corpo e brotou com vigor de todos os poros.

O que poderia ser visto como o fim do sofrimento, a série Transparent, da Amazon, magistralmente mostra como mais um passo do flagelo humano. Quem exatamente é Maura e o que ela realmente quer são duas entre tantas perguntas que surgem. Sua história sempre foi marcada por avanços e derrotas, e não é diferente na terceira temporada.

Logo no começo, ela indaga qual seria o motivo de tamanha tristeza que sente, já que tem tantas conquistas. Desconte, resolve passar por procedimentos estéticos, inclusive fazer a cirurgia de redesignação sexual – decisão que impacta boa parte de sua participação no terceiro ano da produção.

Como de costume, Jeffrey Tambor, que recentemente levou um Emmy, está impecável no papel, que o faz transitar por sentimentos como alegria, raiva, medo, tristeza, prazer e esperança. Todavia, a série não se trata apenas de Maura. Se ela é o centro do primeiro episódio, mostra-se secundária em outros e, no sexto, nem ao menos aparece.

Uma das qualidades de Transparent é dar espaço para todos os personagens, que ganham trajetórias independentes. Shelly, por exemplo, foi o destaque do último episódio. Já está mais do que na hora de Judith Light ser premiada, já que transmite tão bem as alegrias e tristezas da personagem que melhor se ajusta à ideia de uma comédia dramática – sem falar no talento como cantora, explorado com sensibilidade.

Os irmãos Ali (Gaby Hoffmann), Sarah (Amy Landecker) e Josh (Jay Duplass) continuam tão perdidos quanto outrora. Josh, que se sente mal desde o término com Raquel, ganhou um dos momentos mais importantes da atração. Durante viagem acompanhado da transexual Shea, vivida pela deslumbrante Trace Lysette, surge um interesse romântico. No entanto, quando a relação se torna mais íntima e ela revela que tem HIV, ele demonstra toda a ignorância da sociedade com relação ao assunto.

Passagens como essa tornam Transparent uma obra de extrema relevância. Religião, preconceito de classe, fluidez da sexualidade, fetiches etc. Muitos assuntos são tratados com seriedade e envolvem nossos protagonistas, que são imperfeitos. Mais do que isso, cometem erros com frequência. São versões mais duras da Clara de Aquarius, que, para o bem e para o mal, representa a elite intelectual e não é poupada pelo roteiro. A figura típica do super-herói dá lugar a humanos ordinários, que nos deliciam com suas tortuosas buscas pela felicidade.

Será que algum deles realmente será feliz? Provavelmente continuarão fazendo aquilo ao qual já estão habituados: juntar os pedaços e sorrir independentemente do quanto doa.

 

Nota (0-10): 10

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