Crítica Okja: insensibilidade humana

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Antes mesmo de ser disponibilizado na Netflix, o filme Okja, de Joon-ho Bong, já era peça central de uma polêmica. Sua passagem pelo Festival de Cannes inclusive foi um dos motivos para que as regras para participar do evento fossem alteradas.

Todo o drama ao redor do fato da Netflix não exibir seus dois concorrentes à Palma de Ouro no cinema francês, todavia, talvez tenha roubado em excesso a atenção que deveria ser dada para uma polêmica bem maior: a insensibilidade humana escancarada na trama do diretor e roteirista sul-coreano.

Na película, uma jovem chamada Mija (Seo-Hyun Ahn) vive nas montanhas com o avô e com sua melhor amiga, uma espécie de superporca com alguns traços caninos, um entre vinte e seis exemplares criados por dez anos em diversos países ao redor do mundo. Okja é de propriedade de uma poderosa multinacional, que a leva para Nova York, dando início uma arriscada aventura da jovem Mija para resgatar a companheiro.

O maior acerto da produção é amor entre as duas protagonistas. A relação de afeto que há entre Okja e Mija é extremamente encantadora. Ela é tão bonita que dá força para a excelente mensagem principal que a obra quer passar. Não há como não se indignar ao ver os maus-tratos sofridos pelos animais grandalhões.

A ficção, como de costume, traduz práticas cotidianas – e melhor exemplifica o quão desumano é o trabalho praticado por enorme parcela da indústria alimentícia. E o pior: tudo maquiado com propagandas que vendem simplesmente uma mentira.

Nesse ponto entra as vilãs interpretadas por Tilda Swinton, que trabalham na companhia de Frank (Giancarlo Esposito) e Johnny (Jake Gyllenhaal). Por mais que todos os personagens sejam interessantes, é preciso dizer que o filme tira a força de um contraponto à protagonista ao pulverizar as ações antagônicas entre diferentes personagens com pouco tempo de tela. Acaba que eles geralmente aparecem apenas para cumprir sua cota de ações necessárias para encaminhar o filme ao seu desfecho, sem nada que faça com que possam se sobressair.

A inserção de um segundo núcleo de mocinhos, que irão lutar ao lado de Mija, também é uma escolha um tanto estranha. O líder do grupo de ativistas dos direitos animais, Jay (Paul Dano), e seu grupo não têm força suficiente para nos gerar tanta empatia. Mesmo assim, na cena pós-créditos, cabe a esse pessoal deixar um gancho para uma possível continuação – que poderia ser desenvolvida com ou sem a presença de Okja e sua amiga.

É muito interessante que o filme dê um fim mais próximo do feliz possível para a dupla de protagonistas e, mesmo assim, não puna como deveria os vilões. É um sopro amargo da realidade, na qual provavelmente uma menina tão teria capacidade para derrubar uma grande indústria.

Independentemente de o desenlace ter sido criado para reflexão ou para deixar espaço para um segundo filme, acabou funcionando. Foi uma conclusão agridoce para uma trama que, mesmo com pontos questionáveis, trouxe de maneira correta um assunto que não deveria ser ignorado da forma como é.

 

Nota (0-10): 7

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