Crítica Fleabag S1: a dor que nos faz sorrir

Há uma pequena mancha na testa. Durante boa parte da temporada, ela ficou escondida o tempo todo atrás de uma mecha de cabelo. Após aparecer pela primeira vez, pergunto-me como ela sempre esteve ali e só agora fui ver.

Fleabag, personagem que dá nome a nova série da Amazon, é muito mais complexa que essa mancha – assim como todos nós. No entanto, tal característica física serve como analogia com a protagonista, que se revela aos poucos, mesmo sempre estando presente em sua totalidade, desde o minuto inicial.

Phoebe Waller-Bridge, sua intérprete e roteirista dos seis episódios, faz um trabalho excepcional ao tirar de toda dor que permeia a vida de Pleabag, ocasiões extremamente cômicas. Há uma verdade um tanto cruel e incômoda na sua relação com familiares, amigos e parceiros sexuais. Todavia, a trama é abordada de uma maneira surpreendentemente divertida de acompanhar.

As situações apresentadas suscitam diversos questionamentos. Um dos que mais interessantes acontece no quarto episódio. Enquanto a protagonista e sua irmã Claire (Sian Clifford) vão para um retiro de silêncio, presente do pai (Bill Paterson), na mansão ao lado um grupo de homens busca o autocontrole gritando palavras ofensivas a mulheres.

É uma boa representação do que ocorre na sociedade, que na maioria das vezes impõe à mulher o silêncio para ter paz interior e, enquanto isso, permite ao homem extravasar como bem entender. Este, aliviado e com uma superficial promessa de melhora, ganha um tapinha nas costas.

Aliás, os homens com o qual Fleabag se relaciona no primeiro ano, apesar de personalidades bem diferentes, repetem-se quando se trata de ter prazer. Ou seja, estão preocupados apenas com o seu. Num dos momentos mais incômodos, Harry (Hugh Skinner) pede para que ela pare de se masturbar.

O mais incrível é que tudo isso transcorre de maneira tão natural quanto, infelizmente, se passa no dia a dia. As cenas só costumam ser interrompidas para breves interações da personagem central com o telespectador, um recurso dramático também utilizado por House of Cards, por exemplo – pena que no caso de Fleabag se mostre um pouco excessivo em alguns momentos, única ressalva que gostaria de fazer.

Profundamente humana, esta comédia é uma grata surpresa e merece todo e qualquer reconhecimento do público e da crítica.

 

Nota (0-10): 9

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