Crítica Mr. Robot S2: mentira e omissão

Há três grandes méritos em Mr. Robot, série criada por Sam Esmail. O primeiro é ter um protagonista que foge do comum. Elliot, hacker com problemas mentais que lidera a FSociety, não é o típico jovem de rebeldia conveniente com ares de sedutor. O segundo é sua qualidade técnica. Todos os 12 episódios da segunda temporada, dirigidos por Esmail, mesclam muito bem os aspectos visuais e sonoros. A música se encaixa perfeitamente num entrelaçamento de cenas com fotografia ímpar, que remete a obras como o filme polonês Ida, fantástico ao usar enquadramentos que oprimem, sufocam. O terceiro é a crítica recorrente a aspectos preocupantes da sociedade moderna – da invasão de privacidade à relação promíscua entre grandes empresas e governos.

A Evil Corp sofreu, na primeira temporada, um ataque do grupo de hackers. O que parecia ser o fim da corporação mostrou-se, todavia, apenas um sobressalto. Transações e ameaças lhe renderam sobrevida. Claro que todas as tratativas internas são desconhecidas pela população. Entretanto, não é só a empresa que se mostrou capaz de mentir e omitir para benefício próprio. Tal recurso é incorporado na série, que o usa com frequência e de maneira pouco instigante.

Carrie Mathison, personagem central de Homeland, por exemplo, já omitiu informações importantes do público para criar pontos de virada. Pode funcionar na primeira vez, mas certamente não surtirá o mesmo efeito na segunda. Mr. Robot, que demorou dez episódios para nos mostrar por que tem Clube da Luta como uma das principais referências, resolveu passar a metade do segundo ano mentindo sobre o que de fato estava acontecendo com Elliot. Além de mentir, isolou o protagonista dos acontecimentos principais, desestruturando a ação e dando a impressão de que foi uma solução barata revestida de inteligente, tudo servindo apenas para frear o segundo passo do plano.

Além disso, a produção tem por costume cortar diálogos importantes. Sinceramente, não estamos falando de Lost, onde tudo está envolto por uma aura de mistério na vida dos passageiros da Oceanic Airlines. Não saber o que Whiterose disse para Angela, já na reta final, só causa mais desconforto.

O encontro das duas personagens, aliás, evidencia algumas limitações possivelmente impostas pelo roteiro e pela direção. Se BD Wong tem a chance de mostrar versatilidade ao incorporar as duas faces do ministro chinês, Portia Doubleday parece estar prestes a ter uma crise de choro em todas as cenas – assim como Carly Chaikin não perde o ar de quem quer que o mundo exploda, mesmo após a morte de Cisco, e Rami Malek fica boquiaberto a cada novo acontecimento.

Os problemas no enredo acabam tirando parte do brilho da qualidade técnica e da crítica à sociedade. Soluções criativas, como inserir Elliot numa fantasia com cara de sitcom, não mascaram a dificuldade em seguir a história de maneira empolgante.

 

Nota (0-10): 6

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