Crítica Irma Vep: metalinguagem formidável

O filme seriado francês Les Vampires, disponibilizado nos anos 1910, foi um sucesso. Escrito e dirigido por Louis Feuillade, o trabalho de dez partes que totalizam sete horas de duração traz protagonistas que tentam frear a gangue conhecida como Os vampiros – o nome não tem ligação com os seres míticos.

Com uma roupa justa preta da cabeça aos pés, a personagem Irma Vep, um anagrama para vampire, se tornou um fenômeno, bem como a sua intérprete, a atriz Musidora. Criadora, criatura e obra foram imortalizadas na história do cinema.

Na década de 1990, o cineasta Olivier Assayas fez um longa-metragem chamado Irma Vep, que conta a história de uma produção fictícia do remake do clássico Les Vampires.  Na obra, a atriz Maggie Cheung interpreta ela mesma como alguém que vai à Europa gravar o remake. Em um exercício de metalinguagem, que seria potencializado mais ainda recentemente por Assayas, temos um filme real falando sobre a gravação fictícia de um remake de uma obra real.

Em 2022, a HBO Max lança uma nova versão de Irma Vep, agora em formato de minissérie com oito episódios. Igualmente levado a cabo por Assayas, o trabalho consegue instigar mais o público, com tempo suficiente para trazer nuances aos personagens enquanto mistura de modo brilhante ficção e realidade.

Quem assume o posto principal desta vez é Alicia Vikander, em um trabalho memorável. Ela dá a Mira toda a carga de sensualidade que nos arrebata logo de início. Mais do que isso, a série consegue revelar sua personalidade como se fossem camadas a serem trazidas a público uma por uma. Um dos momentos mais interessantes é quando Gottfried (Lars Eidinger) diz que, apesar de sua imagem durona, ela é em verdade cândida. Dá vontade de gritar em concordância porque faz pouco tempo que nós conseguimos descobrir isso por conta própria.

O diretor consegue aproveitar bem todo esse tempo extra e vemos mais materiais originais de Les Vampires, além de aprofundar histórias. A fusão de Mira e Irma Vep é mais orgânica e intensa. A própria discussão entre arte e entretenimento fica mais saborosa de acompanhar, apesar de ser elitista, na minha opinião.

Outro entre inúmeros detalhes interessantes é a introdução na trama do casamento real de Assayas e Cheung, que se separaram alguns anos depois. A atração de 2022 fez referência a um filme homônimo anteriormente gravado. E isso é bem aproveitado. Se na obra de 1996 há uma discussão xenófoba sobre uma chinesa interpretar o papel que fora de uma francesa, agora há a reflexão de uma atriz americana – que em verdade é europeia – tomar o lugar que antes fora de uma asiática. Essa mudança vem porque, na série, o diretor fictício René Vidal (Vincent Macaigne) não consegue lidar bem com a separação que teve da atriz que protagonizou o filme. Macaigne, por sinal, está genial. Ele humaniza muito um personagem que no longa-metragem real, interpretado por Jean-Pierre Léaud, não despertava empatia alguma.

Se há uma crítica a ser feita, é que a série dá pouco espaço para seus coadjuvantes na reta final. Como são tão bons de acompanhar quanto Mira e René, fica a vontade de ver mais um pouquinho de cada um antes do fim.

Uma minissérie sobre a produção de uma série que já foi um filme sobre a produção de um remake de outro filme, este real. Espero não ter deixado tudo confuso, pois a mensagem é nítida: assistam Irma Vep.

Nota (0-10): 9

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