Crítica Queer as folk (2022) S1: não empolga

A primeira versão de Queer as folk, criada por Russell T. Davies, foi um marco para a comunidade LGBTQIAP+, em especial gays, até então muito marginalizados no cinema e na televisão. O programa logo ganhou uma adaptação norte-americana quase idêntica, isso lá na virada do século, início dos anos 2000.

Cerca de duas décadas depois estreia uma nova série homônima comandada por Stephen Dunn. A atração une o foco anterior na comunidade queer com uma nova roupagem mais inclusiva e em sintonia com a realidade atual.

Um bom exemplo é o casal Shar (CG), pessoa não binária negra, e Ruthie (Jesse James Keitel), mulher trans. Logo no primeiro dos oito episódios Shar dá à luz dois bebês, deixando nítido seu papel e de Ruthie como de substituição àquele outrora ocupado por Lindsay (Thea Gill) e Melanie (Michelle Clunie), duas lésbicas cis brancas.

É interessante termos um elenco mais diverso, incluindo pessoas com deficiência, bem como narrativas que divirjam bastante do material de origem. Pena a série não ter capacidade de nos envolver ou de dar o tom necessário para os momentos dramáticos.

Trazer o tiroteio dentro da boate Babylon no primeiro capítulo foi um erro. Não tivemos tempo suficiente para nos afeiçoarmos aos protagonistas, o que, aliado a roteiro e direção fracos, fez com que a sequência não tivesse a força necessária para nos sensibilizar.

Outro aspecto muito ruim é a personalidade odiosa de Brodie (Devin Way). Se Brian Kinney (Gale Harold) tinha alguns momentos de redenção no passado, o mesmo não pode ser dito aqui. Brodie é apenas idiota e toma uma decisão babaca após a outra.

Ruthie, sua amiga, também não fica para trás. É uma decisão muito previsível do roteiro fazer com que ela tenha o ponto de virada para o bem no exato momento que Shar transa com Brenda (Kim Cattrall), que é mãe de Brodie e Julian (Ryan O’Connell). Essa relação de cumplicidade entre Sher e Brenda foi construída com cuidado e foi verossímil quando resolveram se livrar de suas angústias no banheiro de um bar.

O mesmo cuidado não se teve ao aproximar Julian e Noah (Johnny Sibilly), ex-companheiro de Brodie. Sim, Noah fica com os dois irmãos – o que é um tanto curioso, vamos dizer assim.

O problema não reside em Julian ter paralisia cerebral e Noah ser uma pessoa sem deficiência e considerado socialmente um nível acima, como os amigos de ambos pensam. Fato é que eles mal se falam no começo, assistem a Buffy the Vampire Slayer juntos e num piscar de olhos já dizem se amar. Até mesmo a interação de Julian com o profissional do sexo foi muito mais íntima e bem desenvolvida.

Mingus (Fin Argus) e sua mãe, Judy (Juliette Lewis), têm uma dinâmica interessante. São, entretanto, jogados em um espiral de infortúnios, assim como os demais. Aliás, o estilo de Mingus é formidável, tanto maquiagens quanto roupas. Foi o único que conseguiu me fazer chorar, quando performou como drag no último episódio da primeira temporada. Aquela cena foi bem potente, diferente das demais.

Artigo: Queer as folk e o problema da monogamia

De modo geral, faltou um Emmett (Peter Paige) para alegrar nossas vidas. A série também é fraca ao que tem a oferecer. Homens transando loucamente uns com os outros já deixou de ser polêmico ou novidade. Aliás, soa estranho uma série ser tão militante e o único personagem que realmente milita ser caracterizado como um oportunista estranho.

Ao que parece, outras produções não necessariamente centradas apenas na comunidade queer conseguem ter uma visão mais sadia e plural da população LGBTQIAP+. O mundo não é só festa.

Nota (0-10): 4

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