Crítica Orange Is the New Black S7: difícil recomeço

Uma das séries da Netflix mais reconhecidas pela crítica e pelo público encerrou a sua trajetória. Orange Is the New Black, uma produção de Jenji Kohan desenvolvida a partir da biografia de Piper Kerman, fechou o seu ciclo com a exibição da sétima temporada.

A atração certamente teve um caminho de altos e baixos. Começou aclamada, tornando-se extremamente popular, mas viu sua qualidade declinar levemente a partir da terceira temporada. De lá até a sexta, dava indícios de certa fadiga, mesmo que ainda fosse muito relevante. Assim, chegou ao último ano com a tarefa de elevar novamente a qualidade – algo que felizmente conseguiu fazer.

O desfecho da série é bom o suficiente para agradar aos espectadores mais críticos. Após tanta dor, quem pode juntou seus cacos e seguiu em frente. Como o mundo está longe de ser perfeito – e a atração consegue reproduzir muito bem esse sistema de desigualdades –, nem todas as protagonistas que aprendemos a amar puderam vislumbrar um futuro mais feliz.

É preciso ressaltar que algo que parecia impossível conseguiu ser feito: Piper Chapman (Taylor Schilling) deixou de ser chata. A saída da prisão foi benéfica para o desenvolvimento da personagem, que trouxe discussões interessantes para a trama. Tanto sua dificuldade em lidar com o emprego, o preconceito por ser ex-detenta e, principalmente, o relacionamento à distância com Alex Vause (Laura Prepon), que continuou encarcerada.

Esta, por sua vez, teve de lidar com a corrupção dos guardas. É importante abordar diferentes erros cometidos pelas pessoas que trabalham no sistema prisional, que nos Estados Unidos, bem como no Brasil, segue uma lógica de punir, não de reinserir na sociedade. É compreensível a alta taxa de reincidência de crimes quando seres humanos são tratados como animais e sofrem diferentes tipos de violências. Prisões devem ser colônias de férias? Não, mas também não devem ferir a dignidade humana e ignorar o principal, que é a necessidade de mudar condutas para impedir a execução de novos atos que infrinjam a lei.

O resto do time de protagonistas igualmente soube aproveitar o tempo em tela. Red (Kate Mulgrew) deixou nossos olhos marejados ao desenvolver demência durante o período que ficou na solitária. Lorna Morello (Yael Stone) cortou corações ao abraçar de vez o mundo da fantasia como mecanismo de defesa frente à morte do filho.

Blanca Flores (Laura Gómez) e Maritza Ramos (Diane Guerrero) foram responsáveis pelo aprofundamento do assunto da deportação de imigrantes ilegais. Todo o arco envolvendo elas e demais mulheres aprisionadas sem direitos em um grande salão revela uma desumanidade ímpar. O sumiço de Maritza, em especial, resume bem a invisibilidade de quem luta por uma vida longe de conflitos e tantas privações.

Outra pauta atual que entrou na série foi o movimento Me Too, que teve como personagens principais Susan Fischer (Lauren Lapkus) e Joe Caputo (Nick Sandow) na ficção. A parte particularmente marcante – e triste – é quando Joe, que está sendo visto como pária após ser publicamente denunciado, é aconselhado a não se preocupar tanto, pois as pessoas acabam esquecendo. E elas realmente acabam esquecendo.

É importante também evidenciar os caminhos opostos seguidos por Dayanara Diaz (Dascha Polanco) e Tasha ‘Taystee’ Jefferson (Danielle Brooks), ambas condenadas à prisão perpétua. Enquanto esta preocupa-se em ajudar outras pessoas, aquela trilha o caminho do vício e do tráfico. Elas são um bom exemplo do quanto a produção busca equilibrar destinos tristes e (parcialmente) felizes.

Outra qualidade evidente da série é mostrar que as pessoas oscilam entre atos de bondade e maldade. Cindy Hayes (Adrienne C. Moore) é um bom caso. Ela nos desperta raiva e pena ao mesmo tempo.

Leia a crítica de Orange Is the New Black S6

Gostaria de encerrar fazendo uma saudação especial às personagens Suzanne ‘Crazy Eyes’ Warren (Uzo Aduba), Gloria Mendoza (Selenis Leyva), Tiffany ‘Pennsatucky’ Doggett (Taryn Manning), Nicky Nichols (Natasha Lyonne), Marisol ‘Flaca’ Gonzales (Jackie Cruz), Big Boo (Lea DeLaria), Frieda Berlin (Dale Soules), Poussey Washington (Samira Wiley), Sophia Burset (Laverne Cox) e tantas outras que nos emocionaram tanto.

Orange Is the New Black ficará eternizada como uma produção com incrível história e elenco, além do comprometimento com valores profundamente humanos.

Nota (0-10): 9

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s