Crítica Orange Is the New Black S6: vidas à deriva

Guardas que espancam, colegas de cela que tentam te matar, gangues que incitam o ódio, drogas como escapatória, regras mais rígidas. Não está nada fácil a vida das protagonistas de Orange Is the New Black, série criada por Jenji Kohan com base no livro de memórias de Piper Kerman.

Em sua sexta temporada, a produção dá continuidade ao grande arco iniciado no ano anterior, quando as mulheres de Litchfield fizeram um motim na tentativa de barrar os diversos abusos que sofrem.

A primeira grande pergunta é se o drama conseguiu voltar à velha forma, uma vez que visivelmente teve sua qualidade narrativa prejudicada com o passar dos anos. A resposta, infelizmente, é não. Apesar de trazer novos personagens e assuntos importantes, fica evidente que há certo esgotamento da fórmula.

Do primeiro ao décimo terceiro episódio, é difícil não pensar que muito do que vemos é mais do mesmo. Sabemos, por exemplo, sobre a rivalidade interna entre detentas. Entretanto, após um acontecimento tão grave quanto aquele que ocorreu, é complicado entender por qual motivo constrói-se uma nova disputa entre duas mulheres, tirando parcela do foco do verdadeiro vilão, que é o sistema prisional.

Taystee (Danielle Brooks), que alcançou o posto de figura mais importante da trama, tem sua saga em busca de justiça disputando espaço com enredos tão menos significativos. A inserção do movimento Black Lives Matter e a repercussão em todo o país do seu julgamento poderiam ser tão mais ricamente exploradas.

Ainda sobre o mesmo assunto, pergunto: para que fazer a Cindy (Adrienne C. Moore) trair a amiga da forma como ela traiu? Entendo as consequências dela dizer a verdade. Todavia, agir da maneira como agiu causa muita revolta. A série gosta de mostrar que os personagens têm dois lados, um bom e outro ruim. Só que em alguns momentos essa dualidade é revoltante – aliás, há tantas mudanças de comportamento que nem recordo da maioria.

Esse problema de memória não é resultante apenas de um roteiro que oscila, mas também do número exagerado de integrantes no elenco. Muitas histórias são trabalhadas tão relapsamente, provavelmente por causa disso. Crazy Eyes (Uzo Aduba) há tempos não ganha um bom arco. Pennsatucky (Taryn Manning), que passou a ser uma das preferidas, ficou em um limbo ao retornar para o encarceramento.  Big Boo (Lea DeLaria) apareceu apenas poucos segundos. Sophia (Laverne Cox) saiu da prisão sem ter feito quase nada desde que foi para a solitária.

 

Leia a crítica de Orange Is the New Black S5

 

Em contrapartida, Dayanara (Dascha Polanco) ganhou bom espaço e, ao lado de Aleida (Elizabeth Rodriguez), foi responsável por um dos momentos mais fortes deste ano. A mãe ver a filha mais velha viciada e, mesmo assim, continuar traficando em nome da saúde dos demais é tão chocante e narrativamente eficaz.

Quem também teve destaque foi Blanca (Laura Gómez), que deve ser responsável pelo mergulho no tema da imigração ilegal na sétima temporada.

Por fim, é preciso falar sobre Piper (Taylor Schilling), que finalmente está em liberdade. A personagem nunca soube empolgar frente a colegas tão mais interessantes. Já foi dito que ela permanece na trama – e torcemos para que sua participação seja diminuta. Torço também que estejamos perto do fim, seja lá o que isso seja. Ao acompanharmos tantas vidas à deriva, dá um aperto no peito e a sensação de que não existe futuro.

 

Nota (0-10): 6

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