Crítica O Mecanismo S1: um olhar parcial sobre nosso lamaceiro

A operação Lava Jato certamente é um marco divisor de águas para o Brasil. A impunidade característica para crimes de corrupção, que são praticados no país desde que éramos colônia portuguesa, foi arranhada pela atuação da Polícia Federal, que enfrentou a elite econômica e política e começou a prender quem até então julgava-se inatingível.

O desenrolar desse processo, que já dura anos, é o tema de O Mecanismo, série da Netflix criada por José Padilha, diretor responsável por Tropa de Elite e a nova versão de RoboCop, e Elena Soárez, roteirista de Xingu e Cidade dos Homens.

A produção nasce com o intuito de ser imparcial, tarefa que, conforme podemos presenciar durante os oito episódios, é simplesmente impossível de ser alcançada. Estamos diante de um tema que divide o Brasil, polarizou a população de modo perigoso e desperta, em muitos casos, o que há de pior no ser humano.

A operação teve muitos desdobramentos e é difícil que alguém não tenha uma opinião formada sobre o assunto – e que possa divergir com um sem número de pessoas, já que a questão extrapola a esfera criminal, tornou-se sobretudo ideológica.

Em contexto tão sensível, O Mecanismo cai como uma bomba que joga estilhaços para todos os lados. A produção faz o que todo brasileiro tem imenso prazer em fazer: veste a toga e bate o martelo dando como certas muitas situações que são incógnitas.

Por mais que tenha adotado nomes fictícios para representar figuras públicas reais, fica muito claro quem é quem – e a série causará enorme desconforto para parcela dos espectadores ao sugerir que Dilma (Sura Berditchevsky) teve papel ativo no esquema de corrupção. Não é dito apenas que ela sabia e fez-se de desentendida durante muito tempo. Afirma que estava envolvida no esquema, assim como Lula (Arthur Kohl).

Com relação às falas do ex-presidente, há um problema grave que reforça o erro por parte dos criadores de dizer que são isentos. Ao colorem na boca dele a famosa frase de que tem que “estancar essa sangria”, dita por Romero Jucá, há no mínimo má-fé. Todavia, por mais que avancem em terreno de suposições questionáveis, ao menos não são atiradores de alvo único. Há munições contra Aécio Neves, Temer, a imprensa – em especial a revista Veja –, o Supremo Tribunal Federal e a própria polícia. A série consegue dar uma dimensão do lamaçal que vivemos, mesmo que para isso façam algumas generalizações que enfraquecem o material.

Há uma grande quantidade de elementos neste tabuleiro. A atração é eficaz ao apresentar toda a trama sem ser confusa e imprime um bom ritmo. Pena usar constantes narrações que são didáticas – para não dizer preguiçosas –, por vezes desnecessárias e repletas de clichês, como “o Brasil não é para amadores” e “a corrupção é um câncer”.

Se o roteiro é mais passível de críticas, as atuações estão em terreno mais seguro. Caroline Abras está muito bem no papel da detetive Érika Mialik Marena – que deixou a operação Lava Jato após dois anos e recentemente envolveu-se no escândalo da morte do ex-reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier de Olivo.

Na pele do doleiro Alberto Youssef, Enrique Díaz praticamente reprisa seu papel de cafajeste de Felizes para Sempre?.  Mesmo sendo mais do mesmo, é quem se destaca por causa do seu carisma. Já Selton Mello, que faz o policial aposentado Gerson Machado, certamente é o elo mais fraco entre os protagonistas.

Mesmo que tenha seus pontos falhos, a série merece uma segunda temporada. Com o avançar da história, a produção pode conseguir um maior distanciamento dos fatos. Para além da vaidade, Sergio Moro (Otto Jr.) irá se mostrar uma pessoa tendenciosa? O andamento das investigações dará a entender que parcela da classe política continua poupada?

O Mecanismo chega para incomodar a todos – e isso não necessariamente é ruim.

 

Nota (0-10): 5

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