Crítica Collateral: o drama da imigração ilegal

Miséria, guerra, intolerância religiosa, LGBTfobia etc. Os motivos para as pessoas deixarem sua terra natal e migrar em busca de uma vida melhor são vários. Todavia, por mais que tenham que enfrentar diversas agruras, muitas até mesmo perdem a vida no trajeto, o tão sonhado destino pode transformar-se em um segundo pesadelo.

A imigração ilegal move a minissérie Collateral, trabalho criado e roteirizado por David Hare, que já foi indicado ao Oscar por escrever as adaptações de As Horas e O Leitor, e com direção de SJ Clarkson.

Em seus quatro capítulos, o drama acompanha o desenrolar do assassinato de Abdullah Asif (Sam Otto), entregador de pizza que é executado durante o serviço. Para solucionar o caso, entra em cena a detetive Kip Glaspie, interpretada pela excelente Carey Mulligan. A atriz, que já nos encantou em filmes como Educação, Shame e, mais recentemente, Mudbound, tem uma capacidade incrível de nos magnetizar quando aparece – mesmo que o papel nem sempre faça jus ao seu talento.

Não que Kip seja decepcionante. Muito pelo contrário, ela é um dos melhores elementos de uma trama tem um objetivo claro, mas não necessariamente consegue percorrer o caminho com maestria. Mesmo que o tema principal seja a imigração, e não o crime em si, a atração insere muitos personagens que até dão diferentes perspectivas sobre o mesmo assunto, mas parecem deslocados.

O principal exemplo é Karen Mars (Billie Piper). Após ser solucionado o seu envolvimento com o assassinato, ela poderia facilmente ser deixada de lado. O desenvolvimento de sua subtrama acaba sendo simplesmente incompreensível, levando em conta o contexto da minissérie. Parece que há uma recusa em largar ela e outras pessoas que deveriam ser apenas participações especiais de um ou dois episódios.

Por mais que o político David Mars (John Simm) represente um aspecto que precisa ser abordado, o tempo dedicado a ele demonstra o quanto a produção tem dificuldade de mostrar o drama a partir da ótica das pessoas que mais sofrem. É um trabalho desenvolvido a partir do ponto de vista de londrinos brancos de classe média.

Podemos acompanhar a jornada de dor de Fatima Asif (Ahd) e Mona (July Namir). Entretanto, elas mereciam muito mais destaque que tiveram. Facilmente poderiam ser cortadas cenas de Karen, David e Jane Oliver (Nicola Walker). Esta, que é lésbica e representante da igreja anglicana, vive um dilema interessante, porém com um desenvolvimento que se afasta da trama principal com o passar do tempo.

Peça fundamental da história, Sandrine Shaw (Jeany Spark) tem uma trajetória que chama atenção. O drama que vive, no entanto, suscita uma questão: a violência que ela sofre do seu superior hierárquico é necessária para ilustrar uma questão recorrente ou, levando em conta seu arco dramático como um todo, é desnecessária?

Claro que essas questões não invalidam o material, que é corajoso ao trazer um tema que muitos tentam evitar. Mesmo que discutível, o roteiro quebra algumas convenções de maneira positiva – como revelar a identidade de quem matou ainda no episódio de estreia. Para além do mistério, a força de Collateral reside no impacto da investigação na vida das pessoas. Um trajeto tortuoso filmado com poesia visual por Clarkson, que é afeita a enquadramentos fora do eixo.

 

Nota (0-10): 7

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