Crítica The OA S1: fé e ciência

A morte sempre gerou medo e fascinação. Em países como o Brasil, onde o número de pessoas religiosas é muito maior do que o de ateus, não raro alguém fala sobre céu, inferno, purgatório. Acaba que muitos têm suas vidas conduzidas pelo temor à danação eterna, agem visando um lugar no paraíso. No entanto, a morte extrapola o lado religioso. Ela também é uma questão física.

The OA, série da Netflix criada por Zal Batmanglij e Brit Marling, acompanha a misteriosa história de Prairie Johnson (Marling). Nascida na Rússia, a personagem ficou cega após morrer pela primeira vez e retornar. Enviada para estudar nos Estados Unidos, logo sua vida desmorona e é adotada por Abel (Scott Wilson) e Nancy Johnson (Alice Krige). Ao sair para tentar reencontrar o pai biológico, desaparece durante sete anos. Quando enfim reaparece, traz no corpo parte dos mistérios sobre o seu sumiço.

Nos primeiros segundos, quando a protagonista pula de uma ponte , a produção desperta curiosidade ao mostrar imagens tratadas como se fossem filmadas de um celular. Tecnicamente, há pontos interessantes. A fotografia sabe bem quando fechar o enquadramento sem relevar o local ao redor. A trilha sonora traz boas canções, como Full Circle – sem contar que Sharon Van Etten canta de maneira mágica I Wish I Knew. O que é mais chamativo, entretanto, é o crédito de abertura, que só aparece na parte final do primeiro episódio. Após isso, há sempre o título do capítulo, como se estivéssemos assistindo a um grande filme, e não série.

Apesar desses detalhes agradáveis, o roteiro faz com que a qualidade da produção caia consideravelmente. A começar pela união das cinco pessoas dispostas a ajudar OA. A forma como esta se aproxima e reúne seu grupo não soa crível. A disposição de seus ouvintes, que vão todas as noites, pacientemente, saber o que aconteceu e creem em tudo, soa ainda pior. Os poucos mistérios iniciais vão se diluindo numa narrativa arrastada, que dá atenção em excesso para o passado e pouco explora o presente.

Na necessidade de contar todas as pequenas reviravoltas da história de Nina, os demais personagens são subaproveitados. Seria muito interessante conhecer melhor Betty (Phyllis Smith), Buck (Ian Alexander), French (Brandon Perea) e Jesse (Brendan Meyer). O personagem secundário a ganhar mais evidência é Steve (Patrick Gibson), justamente o mais irritante entre eles.

Da mesma forma, os colegas de cativeiro de OA – exceto Homer (Emory Cohen) – ganham pouco destaque. Estão ali com o único propósito de completar o número de cinco pessoas.

Isso poderia ser atenuado se o lado científico da atração mostrasse força suficiente para nos prender até o final, o que não acontece. A fusão de anjos com outras dimensões torna o enredo de Prairie uma mistura não tão atraente entre fé e ciência. Para completar, o último episódio é realmente frustrante.

Sem o brilho nostálgico de Stranger Things ou a crueza dramática de Black Mirror, The AO mostra-se um passatempo facilmente esquecível.

 

Nota (0-10): 4

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