Crítica 1899 S1: trama convulsionada

A série alemã Dark tornou mundialmente conhecidos os nomes de Baran bo Odar e Jantje Friese. Com enredo intrigante e envolvente, a produção ficou marcada como uma das melhores do gênero. Suas duas primeiras temporadas foram praticamente perfeitas. Já a terceira revelou aquele que pode ser o maior problema da dupla criadora: uma corrida convulsionada contra o tempo para ligar todos os pontos, tirando boa parcela da graça de quem acompanha.

Essa busca desnorteada por todos os pedaços do quebra-cabeça é o calcanhar de Aquiles da nova atração de Odar e Friese: 1899. O drama da Netflix, que tem oito episódios em seu primeiro ano, tem uma primeira metade correta. Nela, descobrimos que Maura (Emily Beecham) está viajando de navio para os Estados Unidos. Nessa Torre de Babel flutuante, diferentes línguas se cruzam, um dos aspectos mais interessantes da história.

Ainda que diferentes, todos têm algo em comum: buscam deixar o passado para trás. Seria tão fácil assim encerar um ato e descortinar outra peça aos demais? Aparentemente, não.

As coisas começam a desandar um pouco na segunda metade da temporada, quando mais e mais respostas aparecem.

Entendam, por favor. Lost, que pode ser considerada a obra-prima das séries de mistério, não foi eficaz apenas por tudo de estranho que acontecia nas ilhas. Fator determinante para o seu sucesso foi o tempo despendido na construção dos personagens. Ainda hoje lembramos com carinho de Kate, Jack, Hurley, Desmond e tantas outras figuras memoráveis. Até hoje lembro o nome de seu melhor capítulo, The Constant, que só teve o impacto emocional desejado porque amávamos muito os protagonistas.

1899 não nos entrega isso com a mesma profundidade e qualidade. Nesse aspecto, o desleixo é tanto que nem ao menos vemos alguma cena do passado de Olek (Maciej Musial), de Virginia (Rosalie Craig), de Clémence (Mathilde Ollivier) ou dos amantes Ángel (Miguel Bernardeau) e Ramiro (José Pimentão), todas peças centrais. Daqueles que vemos, é algo passageiro apenas para reforçar a ideia de que todos fogem do próprio passado.

Assim, sem grande conexão emocional com os protagonistas, embarcamos em uma série de reviravoltas que podem ser mais cansativas do que eletrizantes. O gancho final, aliás, não tem o impacto desejado. A vontade de ver a continuação nasce mais do voto de confiança que os criadores têm por terem feito Dark do que por mérito próprio de 1899.

Resta a Odar e Friese lembrar que realidades, ainda que virtuais, precisam muito do fator humano para pulsarem com força.

Nota (0-10): 5

2 comentários Adicione o seu

  1. cristiano disse:

    Concordo que a primeira metade tava legalzinha e me deixou esperançoso pela conclusão da história. Mas depois descambou. Não darei chance pra segunda temporada. Essa foi o bastante.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá, Cristiano. Te entendo. Com tantas produções disponíveis, não faz muito sentido se apegar a uma que não gostamos tanto. Uma pena. Abraços!

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