Crítica Abbott Elementary S1: nos representa

Produções norte-americanas ambientadas em escolas quase sempre nos dão sensação de inferioridade – exceto aquelas com tiroteios, que fazem lembrar o quão idiota é a política armamentista dos EUA. Tirando essas, há problemas de bullying, entre outros conflitos, mas de modo geral as escolas são boas. Há estrutura física decente, professores, material escolar. Falta alma, mas não falta dinheiro.

Abbott Elementary, comédia criada por Quinta Brunson, que também protagoniza o trabalho, é o oposto disso. Sobra força de vontade, ao menos pela parte de Janine (Brunson), mas falta todo o resto. A escola, que integra o sistema público e fica na Filadélfia, traz ares de familiaridade ao brasileiro. Finalmente temos uma série que também nos representa – quem estudou em escola pública sabe do que eu estou falando.

Não que todas nossas escolas sejam precárias, mas muitas são e é interessante uma produção, ainda que do outro lado do hemisfério, fazer um humor inteligente e perspicaz sobre a situação.

Tecnicamente, Abbott Elementary não tem nada de inovador. O estilo mockumentary, que imita a gravação de um documentário, é o mesmo de The Office e What We Do in the Shadows, entre outras séries.

A riqueza reside no roteiro e no material humano. O grupo de professores está afinado para dar aula e para nos fazer rir muito. A já mencionada Brunson nos encanta com sua Janine, uma mistura de força, ingenuidade, empatia e baixa estatura. O resto dos personagens não fica para trás. Barbara (Sheryl Lee Ralph) é uma professora experiente, assim como Melissa (Lisa Ann Walter). A dupla sabe bem as mazelas habituais a serem enfrentadas e às vezes se mostra resignada. Ralph em especial nos seduz com sua personagem. Seus trejeitos são firmes e hilários ao mesmo tempo.

Outra pessoa com grande destaque é Ava (Janelle James), a diretora. No começo, é um tanto chocante sua loucura. Todavia, em poucos episódios nos acostumamos com ela e é difícil não gargalhar toda vez que a chantagista aparece.

Jacob (Chris Perfetti) é a parte fofa da trama. Ainda que fale muito às vezes, não tem como não se apaixonar pelo seu jeito entusiasmado. Além disso, a forma natural como ocorre o diálogo com Janine sobre ele ter um namorado, interpretado por Larry Owens, é um entre tantos pontos fortes do roteiro. O personagem é muito mais do que sua sexualidade e todos nós ganhamos com isso.

O único que confesso ter alguma resistência é Gregory (Tyler James Williams), muito fechado. Mesmo ele, até o fim, aprende a se enturmar mais e vai ganhando nossa simpatia. Parece que o contato com Janine é transformador.

Esta é uma boa palavra: transformação. A ingenuidade de Janine sobre como as coisas funcionam é algo positivo. Sua insistência traz mudanças. Ganha a escola. Ganham os alunos e os colegas de trabalho promovidos a amigos. Ganhamos nós.

Nota (0-10): 9

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