Crítica Heartstopper S1: drama gay fofo que consegue dilacerar

Falar sobre Heartstopper, série teen criada por Alice Oseman com base nos quadrinhos homônimos dela, necessita um pouco de tempo. Pode parecer estranho, já que estamos falando de uma produção fofa e leve, mas não é. O romance iniciado entre um adolescente gay e outro bissexual por vezes machuca – e não apenas quando os dois precisam encarar a homofobia, mas também nas partes boas.

É a narrativa do que poderia ter sido. Para mim, homem gay, o ensino médio foi bem diferente daquilo retratado na série. Não havia a hipótese de me envolver romanticamente com outro rapaz porque a simples possibilidade disso acontecer já me deixava nervoso com medo de ser descoberto. E acredito que esteja longe de ser uma experiência isolada.

Torço muito para que enredos queer, em especial centrados em relacionamentos gays, não foquem em tristeza e violência. Quero obras mais alegres, mas confesso não saber lidar com elas. Se há um fim triste como em Call me by your name, fico mal. Se há um desenvolvimento bonito como em Heartstopper, igualmente sofro.

Como já disse, a série escancara uma narrativa que poderia ter existido, mas está longe da minha realidade. Entendo que muitas pessoas heterossexuais também têm experiências traumáticas. Provavelmente a grande maioria da população, independentemente da orientação sexual ou identidade de gênero, esteja longe de ter vivido o seu conto de fadas durante o período escolar. No caso de pessoas queer, há um elemento extra que me tortura ainda hoje. Teria eu sido feliz se nossa sociedade não fosse tão queerfóbica?

Nós carregamos bagagens pelo resto de nossas vidas e cabe a nós descobrirmos a melhor forma de lidar com elas. Uns conseguem com maestria, outros têm dificuldade com seus fardos. Precisamos respeitar diferentes vivências e entender que não somos obrigados a ser fortes o tempo todo. É possível parar, respirar, reordenar os pensamentos, admitir fraquezas.

Pois bem, todo esse início do texto é uma demonstração de como uma atração que pode ser apenas um bom passatempo para alguns consegue mexer muito com outros. A criadora da série, que é assexual arromântica, deve entender isso, tanto que criou uma história que tem encantado muitos.

Para além de sua fofura, potencializada por protagonistas carismáticos, Joe Locke e Kit Connor, que vivem respectivamente Charlie e Nick, e animações 2D que aproximam o trabalho de seu material de origem, é preciso ressaltar que não vemos nada tão diferente do que já tivemos nas ótimas Love, Victor e Young Royals. Ainda assim, é um trabalho agradável de acompanhar – ainda mais porque conta com a vencedora do Oscar Olivia Colman no elenco, uma adição inesperada para ninguém colocar defeito.

Leia a crítica de Love, Victor S2

Passado o choque inicial após maratonar a série, confesso estar mais curioso pela continuação. O primeiro ano lidou bem com aquilo já esperado: o início do relacionamento e a necessidade de um deles compreender a própria sexualidade.

Love, Victor, por exemplo, conseguiu dar passos largos para melhor quando superou essa fase – muito em decorrência da primeira temporada ter sido planejada para a Disney+ e, com a mudança de casa para Hulu, a trama ter maior liberdade. Em breve também descobriremos como será a continuação de Young Royals, que entre as três se sai melhor por ter um roteiro mais maduro.

Leia a crítica de Young Royals S1

Não que Hearstopper, que também conta com uma menina trans e duas lésbicas no elenco principal, deva ser diminuída por sua aparente leveza. A própria personagem de Colman é um bom exemplo: com pequenos atos, a mãe de Nick mostra pais que agem como se seus filhos fossem automaticamente heterossexuais e, ainda que não saibam, machucam e dificultam a “saída do armário”.

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O bullying na escola é apenas a face mais visível de uma estrutura social que põe muita pressão em crianças LGBTQIAP+. Tanto que o silêncio pedido sobre o assunto em escolas é um dos atos mais perversos vindos de conservadores. Querendo ou não, discutindo ou não, jovens queer continuarão a existir. Negar isso é fazer com que vidas frágeis tornem-se seres humanos desorientados, isolados e tristes.

Nota (0-10): 8

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