Crítica The Long Call: a ditadura da aceitação

Baseada no livro homônimo de 2019 escrito por Ann Cleeves, a minissérie The Long Call, adaptada para a televisão em quatro episódios por Kelly Jones, acompanha o detetive Matthew Venn (Ben Aldridge), que se mudou para a sua terra natal com o marido, Jonathan (Declan Bennett).

No dia do enterro do seu pai, que fazia parte de uma comunidade religiosa ultraconservadora, ocorre um assassinato na cidade e Matthew é encarregado de descobrir a identidade do assassino. Enquanto isso, também tenta manter algum tipo de vínculo com Dorothy (Juliet Stevenson), a mãe preconceituosa.

No quesito mistério, a atração entrega o mesmo de sempre. Somos logo bombardeados com suspeitos, muita gente mentindo em interrogatórios policiais, ganchos que sabemos não dar em nada e uma reviravolta nos minutos finais.

O elenco ao menos se esforça para dar profundidade à trama, tão belamente fotografada por Bjørn Ståle Bratberg. A qualidade cinematográfica das imagens que vemos merece ser mencionada, pois é o ponto a nos encantar.

Voltando-se para a questão dramática, há sentimentos mistos. Assim como o público bem apontou e festejou, é ótimo que tenhamos um protagonista gay conduzindo a trama. Um homem em um relacionamento estável e bom emprego.

Ocorre que mesmo que ele já seja uma pessoa de meia-idade com trajetória respeitável, o roteiro faz com que seu conflito pessoal seja o mais batido para homossexuais: a saída do armário e aceitação dos outros.

O personagem diz que é como se estivesse saindo do armário novamente quando escancara para a mãe a questão do casamento com outro homem – e assim a produção fica presa à velha ditadura da aceitação.

Precisamos tirar esse poder dos conservadores. Temos que ter em mente que não cabe a eles aceitar ou não o gênero, a sexualidade, os relacionamentos de qualquer um. Basta com esse discurso de que alguém precisa da bênção de outro para viver. A vida é muito curta para subordinarmos qualquer existência ao crivo reacionário.

Matthew tem demônios os suficientes para lidar, não precisa de todo o desgaste de repetir mil vezes que sua existência é legítima do jeito que é. Se sua mãe é capaz de destruir a família em nome de uma religião absurda, o problema é dela. Quem está doente é ela.

Ninguém merece sacrificar sua própria saúde mental para ter migalhas de respeito de quem desconhece o verdadeiro significado de amor e empatia. Os ignorantes não têm o poder de guiar nossas vidas e precisamos deixar isso bem claro.

Nota (0-10): 6

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