Artigo: Queer as folk e o problema da monogamia

Quem acompanha o número crescente de personagens LGBTQIAP+ na televisão hoje até fica com dificuldade de acreditar que poucos anos atrás o assunto era um tabu imenso. Se gays, lésbicas e bissexuais eram raros, pior ainda para transexuais e as outras letrinhas da sigla.

Em um contexto tão conservador, a série Queer as folk, criada no Reino Unido por Russell T Davies e adaptada nos Estados Unidos por Ron Cowen e Daniel Lipman, foi uma maré de libertação disposta a arrastar para longe o preconceito.

A versão norte-americana foi exibida entre 2000 e 2005, mas continua atual. Uma vasta gama de tramas, como a saída do armário de um jogador de futebol-americano, poderia ir ao ar agora e ressoaria muito em nossa sociedade. O episódio I Love You, da quinta temporada, no qual uma bomba explode na boate gay Babylon, é dilacerante porque pode acontecer a qualquer momento, assim como aconteceu o massacre que vitimou pelo menos 50 pessoas na boate Pulse, em 2016.

Ainda que tenha sido um marco televisivo, a atração está longe de contemplar as diferentes vivências queer – mais do que isso, não chega perto de diversificar as experiências gays, foco da produção. Noites em claro, consumo de drogas ilícitas e sexo em público até fazem parte do nosso mundo, assim como do heterossexual, mas são apenas parcela da comunidade.

Brian Kinney, protagonista interpretado por Gale Harold, sempre rechaçou aproximação com a heteronormatividade em suas relações. Para ele, monogamia é um estilo de vida de heterossexuais que não deveria ser seguido. O que a História nos conta?

Em A origem da família, da propriedade privada e do Estado, Engels nos ensina que sociedades tribais, à época mantidas por meio da caça, tinham casamentos em grupo. Uma mulher podia transar com diferentes homens, já que não fazia diferença qual a paternidade da criança. Os utensílios domésticos eram os únicos bens a serem passados adiante e pertenciam às mulheres.

Com o surgimento do pastoreio, essa relação de forças mudou. Enquanto a esposa tinha apenas alguns cacarecos, o homem era o dono dos animais cuidados, item mais valioso. Para a herança ir para as mãos corretas, era preciso garantir que o bebê fosse mesmo seu filho. Assim nasceu a monogamia, atingindo em cheio as mulheres.

A questão é, em essência, econômica. É preciso lembrar que o matrimônio foi, durante muito tempo, mais uma troca comercial do que qualquer outra coisa. A ideia do casamento romântico é recente. O peso da herança é tão grande que Beatriz Preciado fala não apenas sobre corpos falantes libertos da performance de gênero em seu livro Manifesto contrassexual, mas sobre o fim desse patrimônio repassado aos seus.

Nos dias atuais, a monogamia compulsória não faz sentido nenhum para casais que pretendem ter uma criança sua. Com o teste de paternidade e diferentes modos contraceptivos, é bem possível que cada um transe com várias pessoas sem comprometer a linhagem sanguínea, se assim quiser. Os demais casais, não apenas homossexuais, mas por qualquer outro motivo inférteis ou sem desejo algum de procriar, estão menos atrelados ainda a essa norma.

Entretanto, como já mencionado, as relações mudaram, principalmente em sociedades ocidentais. Uniões são feitas na maioria dos casos por amor – e não há nada de errado em alguém passar o resto dos seus dias transando apenas com um companheiro.

Algumas pessoas sentem mais tesão em transar com quem há afeto e cumplicidade, enquanto outras preferem relações casuais. Há quem não queira transar com ninguém.

O que Brian de Queer as folk faz é o que a maioria das pessoas fazem: querer vender a sua verdade como a única possível. A série reflete o que vemos no dia a dia da sociedade, ou seja, uma dificuldade por parte das pessoas para entender que você não precisa abraçar ou rechaçar a monogamia. Cada um precisa viver suas relações de afeto da forma que lhe agrada e isso pode significar doar-se apenas para uma pessoa, várias ou algum meio-termo. E esses acordos podem mudar com o passar do tempo. Basta respeito e diálogo.

Recentemente, Will Smith afirmou manter uma relação aberta com Jada Pinkett. Em julho de 2021, durante a pandemia de covid-19, uma casa de swing que reunia mais de 300 pessoas, no Rio de Janeiro, foi interditada por causa da aglomeração. Relações não monogâmicas estão longe de ser uma prática do universo queer.

É compreensível enxergar a monogamia como o demônio por trás da heterossexualidade, única relação vista como legítima até pouco tempo atrás. Ela é, em verdade, o bode expiatório do capital – mas pode ser bem mais do que isso, basta você seguir seu coração.

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