Artigo: crianças e adolescentes LGBTQIA+ existem

Deixem nossos filhos em paz. Essa é uma das frases que conservadores costumam vociferar – mistura de preconceito e ignorância que traz consequências devastadoras para menores que não sabem lidar com suas próprias existências e percebem-se acuados e sem apoio.

Poucos dias atrás, a estreia da animação Luca reascendeu o tema. Apesar de não ser a intenção do diretor, a jornada do personagem-título, um monstro marinho impedido pela família de sair do mar, foi amplamente encarada como uma alegoria gay.

O assunto incomoda quem odeia a comunidade queer. São pessoas que fecham os olhos para a verdade e acham que alguém em determinado momento escolhe não ser cisgênero e heterossexual.

A despeito de todas as referências heteronormativas que tive – inclusive “namorei” uma menina na primeira série, algo nunca problematizado por adultos –, por volta dos dez anos me percebi gay. As únicas informações que recebia sobre minha orientação sexual eram negativas. Época de grande preocupação por causa da epidemia de aids, de forma errada entendi que o simples ato sexual entre dois homens faria com que eles se contaminassem. Já podem imaginar os efeitos de tamanha confusão na vida de um pré-adolescente que desejava o “errado”.

O medo tomou conta de mim durante anos. Não me sentia seguro para falar com ninguém e é contra esse isolamento que tanto luto hoje.

Precisamos abordar a diversidade em salas de aula. Professores devem ser capacitados para falar sobre o respeito às diferenças ainda cedo, isso salva vidas. Carl Nassib, primeiro jogador em atividade da NFL a declarar publicamente ser gay, apontou a maior tendência de suicídio entre jovens queers em seu discurso de “saída do armário”.

A cultura também deve tocar no assunto com mais ênfase. Ser gay, bissexual ou lésbica não diz respeito apenas a sexo – é afeto. Crianças não namoram, mas elas amam, ainda que de maneira inocente. Não há motivo para invisibilizar tais existências, mesmo em produções de classificação livre.

A animação The Mitchells vs. The Machines é um exemplo do problema que enfrentamos. A criança heterossexual tem um par explícito. A jovem lésbica, que inclusive já vai para a faculdade, não ganha enredo romântico. O que os reacionários mais querem é que não falemos propriamente sobre quem somos.

Precisamos de menores transexuais como Theo de Chilling Adventures of Sabrina. Bom exemplo também é o filme Alice Júnior, obra nacional que mistura com competência comédia e drama.

Calados não vamos mudar o mundo. Precisamos de nossas existências reconhecidas desde cedo. Aos preconceituosos que querem impor sua doutrinação binária heteronormativa, eu digo: deixem nossos filhos viverem em paz!

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