Crítica Small Axe: racismo britânico

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Diretor das obras-primas Hunger, Shame e 12 Years a Slave, Steve McQueen há tempos mostra ser um dos grandes nomes de sua geração. Vencedor nos festivais de Veneza, Cannes e Toronto, com prêmios do Oscar e Bafta, não por menos despertou meu interesse imediato ao comandar o projeto Small Axe, antologia dividida em cinco filmes.

Apesar de conterem histórias diferentes, todos os episódios têm como pano de fundo o mesmo tema: o racismo contra imigrantes negros caribenhos entre os anos 1960 e 1980, em Londres. O resultado, como esperado, é bem feito e revelador.

Apenas 3% da população do Reino Unido é negra, conforme censo de 2011, ante 87% de brancos. São pessoas que representam uma minoria étnica, o que dificulta suas vozes serem ouvidas. O trabalho de McQueen não apenas os dá total protagonismo, mas evidencia um país que historicamente agride aqueles que considera não pertencentes ao local.

Mangrove, primeira das cinco peças, mostra bem isso. A violência policial é escancarada em um caso verdadeiro. Desde o começo somos presenteados com uma fotografia bela de Shabier Kirchner, qualidade que é constante durante o material todo.

Esse capítulo também traz outro ponto que se repetirá: a falta de um personagem de destaque, alguém empático a quem nos afeiçoamos e por quem torcemos. Infelizmente, três dos cinco filmes têm esse problema. Em Mangrove, a foco é disperso e há momentos de oscilação abrupta de humor.

Lovers Rock, peça subsequente, é ao mesmo tempo a mais despretensiosa e que consegue tocar mais fundo. O casal protagonista tem química e a cena em que o público da festa canta Silly Games, de Janet Kay, é emocionante. Pena que depois a história fica muito tempo em suspenso enquanto continuamos a ver as pessoas dançarem.

Red, White and Blue tem como principal destaque a presença do ator John Boyega, até mesmo faz uma brincadeira com Star Wars. O protagonista se sai bem, apesar do já ressaltado distanciamento que temos de muitos daqueles que transitam em cena.

Esse episódio me faz perceber outro detalhe que dificultou o resto da jornada: o costume de muitos personagens em fazer um barulho característico com a boca em determinados momentos. Talvez seja por eu ter TOC – diagnosticado e devidamente tratado com antidepressivo –, talvez não. Só sei que é algo que me deixou nervoso.

Alex Wheatle, próximo pedaço, traz outra história baseada em fatos reais. Ainda que interessante, talvez seja o ponto menos expressivo entre os apresentados.

Education, que encerra a antologia, tem um desfecho muito bonito. O ator mirim Kenyah Sandy consegue carregar com maestria o enredo. A medida que a história avança, ela ganha força até um terceiro ato que vale tanto para este capítulo quanto para o projeto.

A soma de todos os episódios mostra-se favorável. Ainda que a produção seja menor diante de trabalhos poderosos de McQueen, é um acerto. Encerro com Silly Games, que ficará para sempre em minha vida.

Nota (0-10): 8

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