Crítica Os últimos dias de Gilda: terror neopentecostal

Gilda é uma mulher que transa com quem bem quiser na hora que sentir vontade. Dona do seu corpo e da sua vida. Preza pela sua independência e trata com carinho os familiares, amigos e companheiros.

Em uma sociedade sadia, a protagonista de Os últimos dias de Gilda, série original do Canal Brasil criada e dirigida por Gustavo Pizzi a partir de monólogo teatral de Rodrigo de Roure, seria apenas mais uma pessoa vivendo com sinceridade suas relações de afeto. Num mundo acostumado a reprimir o amor e a verdade, a personagem-título destaca-se ao se opor às trevas.

Com quatro curtos capítulos, a produção tem roteiro de Pizzi e de Karine Teles, intérprete de Gilda tanto nos palcos quanto na televisão. A atriz é um grande destaque do cinema brasileiro, com presença em alguns dos filmes mais prestigiados dos últimos anos, como Que horas ela volta? e Bacurau.

A segurança que Teles traz à personagem é fundamental para tornar crível sua noção de liberdade. É tão bom ver uma mulher madura e fora do padrão de magreza vigente mostrar-se sexy. Gilda é linda. Muito mais do que isso: ela parece real.

Pena o texto, em voo tão curto, não explorar tanto quanto deveria algumas subtramas. A relação dela com o filho é negligenciada – logo essa, que provavelmente todas as mães vão dizer ser a mais forte que há. A relação com a religião de matriz africana igualmente carece de profundidade.

O foco fica na expansão pavorosa da igreja neopentecostal. Para quem vive em bairros mais centrais e arejados, sufoca muito ver uma comunidade imersa em uma realidade paralela. A igreja busca assumir o papel do Estado – e em teocracia, como todos bem sabem, o diabo faz a festa. Em tela, temos um bom lembrete do quão fácil é nossa liberdade esvair-se como água escorrendo por entre os dedos.

Pena o material não ter capacidade para elevar o clima de tensão. Mesmo que bem dirigida, a produção soa um tanto simplista. Além disso, também temos um som irregular, com algumas falas inaudíveis.

O fim, que poderia dar mais força à obra, carece de impacto, apesar de bem-intencionado. É desfecho poético que não sublima a crueza do mundano. É união que talvez signifique mudança, mas igualmente deixa um gosto amargo de tanto vermelho que vemos.

Nota (0-10): 7

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