Crítica I May Destroy You S1: o vazio e o livro

Com bloqueio criativo e prazo prestes a acabar para entregar algum material para seus agentes, a escritora Arabella decide ir a uma festa com seus amigos e espairecer momentaneamente. No local, sem perceber, uma droga é posta em sua bebida. O responsável, que ela não conhece, leva-a alterada para o banheiro e a estupra. O fato, do qual ela recorda apenas poucos flashes na manhã seguinte, é o ponto de partida do drama I May Destroy You, criado, escrito e protagonizado por Michaela Coel.

A produção, uma parceria entre HBO e BBC One, também tem como personagens principais a aspirante a atriz Terry (Weruche Opia) e o dançarino Kwame (Paapa Essiedu), que, apesar de despertarem nossa curiosidade, são tratados com certa displicência pelo roteiro, focado excessivamente em uma protagonista que durante boa parte do tempo não consegue preencher uma única página com boa história.

Coel, pilar de sustentação desta obra, é mais conhecida por Chewing Gum, trabalho que soa até desrespeitoso ao girar ao redor de alguém idiotizado pelo texto em muitas situações. Tratando-se de I May Destroy You, Coel traz uma figura por vezes ainda boba, apesar de muito melhor.

O difícil é sentir empatia por alguém que vive o sonho de qualquer autor, que consiste em ser pago para viver do que mais ama fazer, e ao invés de construir algo positivo, passa vários episódios apenas usando todas as drogas possíveis e exigindo compreensão de seus amigos para, no fim, escrever um livro que seria melhor para ela que nunca fosse necessário existir.

Seu egocentrismo é tanto que relega para um plano muito secundário o estupro de Kwame. A narrativa tão poderosa construída na delegacia é um daqueles pontos de brilhantismo dispersos numa trama que parece não querer levar a nada.

Algumas situações são tão estranhas que até entendemos quando o traficante Biagio (Marouane Zotti) aponta uma arma para Arabella e pede para que ela pare de gritar na porta do seu apartamento.

Aclamada pela crítica, Coel, não podemos negar, tem uma entrega inquietante. Só não tenho certeza se o resultado é o que de melhor podemos esperar de sua geração. Estamos, assim como seus personagens, tão perdidos assim?

Nota (0-10): 6

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