Crítica Mrs. America: submissão

De um lado, o casal progressista que há pouco estava brigando no camarim. Do outro, marido e mulher conservadores em uma relação aparentemente inabalável. Frente a frente, debatem ao vivo, na televisão, a necessidade de passar ou não a Emenda dos Direitos Iguais (Era, sigla em inglês para Equal Rights Amendment). Este momento, um dos mais emblemáticos da minissérie Mrs. America, de Dahvi Waller, mostra-se perfeito ao resumir a luta incansável de Phyllis Schlafly (Cate Blanchett) em um único instante – aquele no qual ela percebe-se obrigada a declarar submissão ao companheiro.

Estados Unidos, década de 1970. Enquanto o movimento feminista ganha grande destaque, uma mulher esforça-se ao máximo para deter as suas vitórias. Phyllis, vivida irretocavelmente por Blanchett, representa a típica mãe de família cristã apegada aos costumes de subserviência.

No início, suas rivais ignoram o panfleto conservador vindo daquela que também se beneficiaria da aprovação da Era. O inimigo óbvio a ser combatido é o homem. Entretanto, essa história, que é real, e outras tantas demonstram que a História é feita de embates entre semelhantes.

A produção televisiva reconstitui com esmero um exemplo que chega a nós em época apropriada. Basta ver a atuação da ministra Damares Alves, que é mulher, à frente do Ministério dos Direitos Humanos ou, igualmente triste, de Sérgio Camargo, que é negro, na direção da Fundação Palmares. Ambos renegam os seus, ocupam com alegria a imaginária posição de inferioridade. Eles lembram muito Serena (Yvonne Strahovski), de The Handmaid’s Tale, uma das personagens mais interessantes da ficção atualmente.

Afinal de contas, nossos algozes não seriam tão fortes se não tivessem aliados entre os oprimidos. Mrs. America, assim como a vida, mostra bem isso. O mais interessante é como também consegue, em pequenos atos, iluminar o quanto sofrem com seus próprios desajustes aqueles que lutam por um mundo nada diverso.

A atração faz isso com um ótimo roteiro, que recebe total suporte da direção e de um elenco formidável.  Além de Blanchett, anteriormente já mencionada, temos as presenças de Rose Byrne, que encarna Gloria Steinem, Uzo Aduba e sua forte Shirley Chisholm, que emociona ao querer ser levada a sério como candidata a presidenta dos EUA, Margo Martindale em ótima forma como Bella Abzug e Tracey Ullman roubando todas as cenas magistralmente como Betty Friedan, entre tantas outras atrizes de peso.

Sem sombra de dúvida, é uma daquelas produções que se destacam em uma era com tantas sendo lançadas simultaneamente. Seu nome, aliás, não poderia ser mais apropriado ao fazer referência a um país comandado por Trump.

O diabo não passa de um reflexo no espelho.

Nota (0-10): 10

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s