Crítica Little Fires Everywhere: didática e decepcionante

Little Fires Everywhere, minissérie criada por Liz Tigelaar a partir de livro homônimo de Celeste Ng, tem os elementos necessários para um bom drama televisivo. Conflitos familiares, tensões raciais, descoberta da própria sexualidade, discussões sobre maternidade e diferentes mistérios a serem revelados ao decorrer dos oito episódios.

Parece, dada a premissa e acrescentada a presença das atrizes Kerry Washington e Reese Witherspoon, que estamos diante de uma fórmula de sucesso. Poderia de fato ser se não falhasse em pontos cruciais.

O primeiro a ser destacado é a falta de empatia dos protagonistas. É difícil não ficar irritado com os personagens ao longo da trama. Witherspoon com sua Elena, uma cópia barata de sua Madeline de Big Little Lies e de outras atuações na mesma linha, não é moldada para ser amada, isso precisamos admitir. Todavia, surpreende que a Mia de Washington mostre-se igualmente intragável.

A artista, que vive com a filha Pearl (Lexi Underwood) na quase penúria, é durona. Também é extremamente estúpida, até mesmo com a jovem que diz tanto amar. E mesquinha, já que pode dar uma vida mais confortável para Pearl e não o faz. O mais engraçado é que, apesar dessa aparência rude, desaba a chorar a todo momento – e não estamos falando de um choro forte como de Viola Davis, mas de uma sucessão de caretas que diminuem a atuação de Washington.

Também precisamos tocar em outro ponto fundamental para qualquer atração ser boa: o roteiro. O texto de Little Fires Everywhere é fraco, didático.  O racismo cotidiano deveria ser diluído nas diferentes cenas com inteligência, sutileza. A produção, entretanto, subestima a inteligência de seu público. As frases preconceituosas são todas destacadas como se a minissérie estivesse dizendo “vejam, aqui há uma cena clara de racismo que só é percebida pelos personagens negros, não pelos brancos”. Essa necessidade de não deixar nada nas entrelinhas é aborrecedora. Faz parecer que estamos em uma aula conduzida por um professor iniciante sem tato algum para o que está fazendo.

Como se não bastasse o discurso panfletário, também são expostas ideias bem questionáveis. Como não se sentir desconfortável com a defesa que Mia faz de Bebe (Lu Huang)? Para a protagonista, Bebe é a única mãe de May Ling porque deu à luz ela. Pelo amor da mãe natureza. Família é amor, não laços consanguíneos. Não estou dizendo que nesse caso específico Linda (Rosemarie DeWitt) deva ficar com a criança, mas seu papel não deve ser apagado com um discurso tão raso.

Como se isso não fosse o suficiente, o fim coloca o resto a perder. Após a fuga de Izzy (Megan Stott), a decisão de Lexie (Jade Pettyjohn), Moody (Gavin Lewis) e Trip (Jordan Elsass) de atear fogo na casa não soa nada crível. Ainda somos brindados com mais duas cenas angustiantes: Bebe, sem recurso algum, fugindo com um bebê e Izzy, uma menina de nem quinze anos, vagando desprotegida pelo país. Um pouso turbulento de um avião de não deveria ter decolado.

Nota (0-10): 5

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