Crítica Unbelievable: vítima desacreditada

Marie sentou exausta à frente dos investigadores. Seu inferno, que ela só queria que acabasse, ainda estava muito longe do fim. Na madrugada anterior, foi violentada sexualmente por um estranho mascarado. Chamou a polícia e teve de repetir várias vezes o que sofreu. Foi desacreditada pelas autoridades, pelos amigos e pelas mães adotivas. Perdeu o emprego e o apartamento em que morava. Foi taxada de mentirosa por aqueles que ela amava – e isso apenas mudou três anos depois, quando fotos da pior noite de sua vida foram encontradas em posse de um estuprador em série recém-capturado.

A história real, vivida entre os anos de 2008 e 2011, virou um artigo vencedor do Prêmio Pulitzer, em 2015, e, quatro anos depois, uma série limitada da Netflix. Unbelievable, atração criada por Susannah Grant, Michael Chabon e Ayelet Waldman, segue de modo bastante fidedigno o drama da jovem, que foi interpretada por Kaitlyn Dever.

Assim como no texto, o programa televisivo preserva a identidade da protagonista – enquanto o artigo apenas revela o nome do meio da vítima, a minissérie acrescenta Adler, um sobrenome fictício. Outras mulheres violentadas têm suas características físicas e seus nomes alterados.

As duas investigadoras que cuidam de casos semelhantes, anos depois, também têm o nome trocado. Stacy Galbraith e Edna Hendershot acabam se tornando Karen Duvall (Merritt Wever) e Grace Rasmussen (Toni Collette), respectivamente. Ao contrário dos policiais que cuidaram do caso de Marie, a dupla avança a investigação com muito mais respeito e empenho.

As duas fazem parte da força do programa e são sua única fragilidade. Ao dramatizar uma dinâmica de profissionais com personalidades distintas, os criadores da série tornam Rasmussen por vezes excessivamente arredia, enquanto Duvall flerta com a apatia em sua calma, com exceção dos momentos de rispidez para com a própria equipe.

Um leve ponto baixo rodeado de um mar de situações que suscitam necessária discussão. O grande trunfo é trazer para a tela a desconfortável realidade por trás de um crime infelizmente tão comum.

O elenco dá força para o drama, que é bem escrito e faz seus oito episódios serem facilmente consumidos. Uma ótima dica para enxergar para além dos números.

Nota (0-10): 9

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