Crítica The Handmaid’s Tale S3: terra de pavor e esperança

Um local onde as mulheres são tratadas como seres inferiores, nem ao menos têm o direito à leitura. Leis rígidas que vão desde cortar um dos dedos da mão até o enforcamento. Apedrejamentos com pitadas de crueldade e perseguições constantes. Sussurros de dor e a resistência que se fortalece a cada novo golpe. A ficção que serve de espelho para uma realidade em tantos lugares não tão distante desse horror.

The Handmaid’s Tale, série criada por Bruce Miller com base na obra literária homônima de Margaret Atwood, pode ser vista como um grande aviso. A proliferação de ideias obscurantistas abala democracias que, apesar de parecerem sólidas, são, em verdade, muito mais frágeis do que queremos admitir.

Em sua terceira temporada, a premiada produção avança em passos lentos a jornada de June Osborne (Elisabeth Moss), que tenta deixar a república teocrática de Gilead ao lado da filha Hannah (Jordana Blake) para juntar-se a Luke (O-T Fagbenle), Moira (Samira Wiley) e a bebê Nichole, sendo que a última é levada para o Canadá por Emily (Alexis Bledel).

As críticas ao ritmo do desenrolar da trama até são válidas, mas é inegável que a atração segue hipnotizante e tecnicamente impecável. Há tantas cenas tão lindamente fotografadas que poderíamos fazer um texto especial apenas sobre isso. O encontro entre June e Serena Waterford (Yvonne Strahovski) ao lado da piscina coberta, por exemplo, é de uma beleza plástica ímpar. A utilização da luz invadindo esse e tantos outros cômodos é sempre um deleite, bem como a utilização das sombras decorrentes. A palheta de cores frias em contraste com o vermelho pulsante das aias torna as cenas ainda mais incríveis, principalmente quando temos tomadas aéreas que as distinguem como pontos em chama em meio ao cinza da terra em que vivem.

O elenco todo também é irrepreensível. Não há um único membro que não entregue uma atuação digna de louros. A começar pela protagonista, claro, sempre eficiente em transmitir as emoções necessárias e Strahovski, que merece mais do que nunca um Emmy. Somente no episódio de estreia do terceiro ano ela já mostra o quão profissional é. Ann Down, que interpreta Lydia Clements, também ganhou mais tempo para mostrar as nuances de sua personagem e é uma concorrente de peso. Ainda temos as excelentes participações de Bradley Whitford, que faz Joseph Lawrence, e Julie Dretzin, que vive a esposa Eleanor.

Os pontos negativos que aponto são os mesmos de sempre: excesso de choro, que dilui a potência do drama, e muitos closes nos rostos. Realmente são características que desagradam, mas fazem parte da identidade da série.

Para além disso, podemos discutir o quão válidas são as reviravoltas que temos. O fato de June salvar cinco mulheres da morte, por exemplo, parecia muito promissor para uma formação mais concreta da resistência, mas foi deixado de lado com o foco da trama do bebê, servindo mais adiante apenas para uma cena, sendo esse vínculo desnecessário.

Sobre os diálogos em si, gostaria de ressaltar um em especial: aquele em que June pergunta para Joseph se ele realmente achava que os comandantes não iriam um dia atrás dele, levando em conta que ele não cumpre suas funções.

Leia a crítica de The Handmaid’s Tale S2

Os papéis de Joseph e de Serena são os mais interessantes, pois ambos tornam-se vítimas de uma sociedade que ajudaram a construir. Trazendo para a realidade brasileira, podemos comparar com os negros, as mulheres, os LGBTs e os pobres que votaram em Bolsonaro.

Apesar de não parecer tão perfeita quanto na primeira temporada, The Handmaid’s Tale segue como uma das melhores produções televisivas da atualidade. Tem tudo para seguir nos surpreendendo e emocionando.

Nota (0-10): 9

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