Artigo: Tina Fey e 30 Rock, entre o brilhantismo e o excesso

A experiência de Tina Fey como primeira mulher a ser redatora-chefe do Saturday Night Live fez surgir o enredo. O prédio 30 Rockefeller Plaza, endereço da NBC Studios em Nova York, deu título à obra. Assim nascia 30 Rock, uma das comédias mais festejadas da televisão norte-americana.

Sete temporadas. Dezesseis prêmios Emmy, entre 103 indicações. Dezessete nomeações ao Globo de Ouro, com seis vitórias. No elenco, nomes como Alec Baldwin, Tracy Morgan, Jane Krakowski, Jack McBrayer, Scott Adsit e Judah Friedlander, além da própria Fey.

Uma produção que se tornou aclamada ao contar os bastidores do programa fictício TGS with Tracy Jordan. Com passagens frenéticas e situações surreais, transformou o trabalho em campo de batalha, com relações em que não se separavam aspectos profissionais dos pessoais – principalmente entre os dois protagonistas, Liz Lemon e Jack Donaghy, interpretados respectivamente por Fey e Baldwin.

Enquanto este vivia um executivo conservador, aquela representava uma funcionária liberal – o conflito entre soluções criativas democratas e cálculos financeiros republicanos. Ao contrário do que vemos hoje, entretanto, havia maior possibilidade de diálogo entre ambos. Até mais do que isso, já que nasceu um peculiar amor pelo qual torcíamos.

Em meio a tanta confusão, diferentes temas foram abordados nos episódios. Os assuntos eram brilhantemente escancarados sem muito pudor. Fomos bombardeados por referências de todos os tipos e gargalhávamos minuto após minuto, principalmente nas três primeiras temporadas.

Então a fórmula se desgastou um bocado. Os conflitos pareciam uma reedição do que já vimos. Nunca deixara de ser bom, mas faltava algo. Aquele ar de novidade repleta de rebeldia envelhecera com o passar dos anos – e a genialidade mostrava rachaduras.

Em determinada cena, Liz Lemon responde ao questionamento de que a atração que ela comanda supostamente odeia as mulheres. A explicação fica confusa e ela desiste de tentar argumentar. É a passagem na ficção que melhor traduz muitos momentos de 30 Rock.

O mais grave provavelmente seja aquele no qual o personagem Pete Hornberger, interpretado por Adsit, aparece satisfeito no trabalho após transar com a esposa enquanto ela dormia. Isso é basicamente estupro. Nem mesmo a reação de asco de Lemon salva a cena, já que ela falha miseravelmente em todos os aspectos possíveis, seja para fazer rir ou conscientizar. Logo, é um diálogo apenas constrangedor.

O gosto por momentos vergonhosos, por sinal, é recorrente. Na última temporada de Unbreakable Kimmy Schmidt, outra atração comandada por Fey, a protagonista assedia um subordinado sem perceber. A sua inocência é desconcertante e o momento inoportuno.

A criadora das duas séries, vale ressaltar, deixa claro que não há tema proibido – principalmente quando joga personagens nazistas sem motivo algum na trama de 30 Rock. Provavelmente seja essa a principal demonstração de sua veia liberal potencializada ao máximo. Ela deve pensar que, se está rindo dos algozes, ganha alguns pontos para fazer o que bem entender.

Como ela acerta muitas vezes, é fácil deixar-se levar. Como é humana, também erra. Não que isso desmereça a trajetória de vitórias de Tina Fey. Apenas serve de lembrete de que toda pessoa, por mais genial que possa parecer, é falha.

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