Crítica Russian Doll S1: camadas de dor

Tem alguém batendo na porta. Está na hora de deixar o banheiro. Lá fora, sua amiga dá uma festa de aniversário para você. Parabéns, chegou aos 36 com humor um tanto peculiar e pulmões aguentando o tranco. É hora de comemorar, talvez se chapar um pouco, transar com alguém e dançar desengonçadamente. Seria somente mais uma passagem de sua vida se não fosse por um detalhe: esta cena já repetiu algumas vezes e, mais cedo ou mais tarde, invariavelmente você morre. De novo.

Um tanto mórbido, desesperador e intrigante, não é mesmo? A série Russian Doll, comédia dramática criada por Amy Poehler, Leslye Headland e Natasha Lyonne, sendo que a última também protagoniza a trama, traz uma premissa que de cara já desperta atenção.

O que estaria acontecendo com Nadia (Lyonne)? O caso fica ainda mais complicado quando ela finalmente conversa com Alan (Charlie Barnett), homem que está passando por situação semelhante. Eles têm suas vidas cruzadas e precisam descobrir o que é preciso fazer para sair desse looping horroroso.

A narrativa, que tem ares sobrenaturais e discussões mais terrenas, é entregue em uma produção com cara de filme independente. O tom alternativo, sem construções que buscam despertar ápices de drama ou suspense, num primeiro momento até mesmo impede de vermos a beleza de sua essência.

No entanto, assim como a boneca russa que dá título à obra, a cada camada de sofrimento e profundidade que atingimos, encontramo-nos mais envolvidos nos mistérios que rondam a atração. Logo, saímos de um piloto que poderia ser classificado como apenas interessante para chegarmos a um oitavo episódio, já no fim da primeira temporada, que nos faz querer muito uma segunda leva de capítulos para amanhã mesmo.

Lyonne, que ficou mais conhecida ao interpretar Nicky Nichols em Orange Is the New Black, não se desprende tanto da imagem desta. Entretanto, cumpre bem o papel que traz poucas cenas realmente mais potentes.

Barnett, que esteve em Chicago Fire durante três temporadas, representa bem o personagem meticuloso que quer ter controle sobre as coisas. Para ele é, inclusive, bom repetir a cena em que sua namorada pede para acabar o relacionamento – ao menos assim pensa enquanto tem esperança de consertar o ocorrido.

São duas almas despedaçadas que têm sintonia em cena e são rodeadas por pessoas curiosas. Eles formam uma rede com conexões cada vez mais claras e objetivo necessário para todos nós. Assim como Maniac, produção recente de grande beleza, toda a trama fantástica está a serviço de sentimentos genuinamente humanos.

Necessitamos uns dos outros. Precisamos salvar e sermos salvos constantemente.

Nota (0-10): 9

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