Crítica Black Mirror Bandersnatch: interatividade que engatinha

Cinco horas de cenas para compor um telefilme interativo onde você escolhe os rumos da história. Com um diferencial atraente, a Netflix disponibilizou um novo capítulo de Black Mirror, que mistura televisão, videogame e discussão sobre livre-arbítrio nesta incursão aos anos 1980.

Na história, Stefan (Fionn Whitehead) é um programador que busca emplacar um jogo chamado Bandersnatch – mesmo nome do subtítulo da atração disponibiliza no serviço de streaming e do livro homônimo fictício que, na trama, faz o seu criador enlouquecer. São três camadas diferentes, todas elas girando ao redor da interatividade.

Num primeiro momento, é importante ressaltar o quão saudável é buscar maneiras diferentes de contar histórias, sendo elas eficazes, ousadas ou fracassadas. A evolução narrativa é dada a partir de experimentações – que podem mudar rumos ou apenas criar alguns nichos. A literatura, como bem conta em Bandersnatch, já trabalha há tempos com o direito do leitor fazer escolhas e ter fins alternativos. É um tipo de narrativa que nunca tomou o lugar da tradicional, mas existe para quem tiver curiosidade.

Parece o caso do audiovisual, onde este tipo de material tem tudo para ficar mais no campo das excentricidades do que ser amplamente executado. Vamos refletir: é preciso mais trabalho em roteiro, mais gravação, pós-produção trabalhosa. Um grande esforço que vale a pena?

Analisando a partir de Black Mirror, a resposta seria não. A parte mais importante de qualquer atração é a qualidade de seu texto – e neste objeto em específico é bem visível a dificuldade em montar um enredo satisfatório.

O começo é apenas tedioso. Sinceramente, eu não quero sentar na frente da televisão para assistir a algo e ter de escolher qual música o protagonista vai escutar, muito menos qual cereal ele vai comer.

Com o avançar de história, tudo parece ficar mais promissor. A escolha de ir trabalhar ou não no escritório é o primeiro momento em que é interessante a nossa interferência. Após isso, temos ocasiões alternadas entre uma interatividade promissora e um exercício fútil de escolha.

Leia a crítica de Black Mirror S4

Então chegamos no momento mais instigante, quando somos percebidos pelo personagem. Essa brincadeira dá esperança de que o drama será elevado para outro patamar que justificará toda a jornada. Todavia, logo após isso, somos presenteados com um fim enfadonho sem cara de fim. Para piorar, visitamos os outros fins alternativos em uma viagem confusa e desnecessária.

Esse desenlace acaba revelando que Bandersnatch funciona mais como um exercício de linguagem do que como uma narrativa ficcional. No fim, permanece uma pergunta que já faço há alguns anos: eu realmente quero escolher o rumo da história ou prefiro deixar o diretor fazer isso por mim?

Nota (0-10): 5

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