Crítica Patrick Melrose: sociedade doentia

Um pai que abusava verbal e sexualmente de seu filho. Uma mãe que fechava os olhos para o que estava ocorrendo e buscava refúgio no álcool para anestesiar a própria dor. Patrick, personagem interpretado por Benedict Cumberbatch, teve uma infância que o marcou fortemente para o resto da vida. Os anos de dor impactaram toda a sua existência, que se tornou, dia após dia, um ato de sobrevivência.

O protagonista da minissérie Patrick Melrose, drama que adapta em cinco capítulos a obra semiautobiográfica homônima de Edward St Aubyn, carrega consigo um peso nem sempre suportável.  Isso faz com que, por exemplo, no primeiro capítulo, que transcorre durante a década de 1980, ele quase tenha overdose. Para fugir dos traumas do passado, Patrick busca refúgio das drogas. O abuso de substâncias torna-o um viciado – e a luta para manter-se limpo soma-se àquelas que ele já enfrentava.

Escrita e dirigida de maneira brilhante, a trama da minissérie passa por diferentes fases da vida do personagem-título sem perder a força dramática. Cenas da infância permeiam uma vida adulta por vezes vazia de sentido, uma existência que durante muito tempo deixou de ser mesmo que ainda aqui esteja.

Para encarnar pessoas tão corroídas pelo tempo, a produção reuniu um elenco excepcional. Cumberbatch tem espaço para demonstrar todo o seu talento em cenas que oscilam de uma tristeza comovente até a mais completa euforia. Ele mais uma vez prova ser merecedor do destaque que ganhou nos últimos anos, sendo um forte candidato para vencer novamente o Emmy – a primeira vez foi pela atuação em Sherlock.

Os coadjuvantes, por sua vez, são igualmente ótimos. Jennifer Jason Leigh vive Eleanor Melrose, a mãe, de maneira avassaladora. Desperta em nós um misto de compaixão e raiva. Afinal de contas, como ela pode ser tão alheia às dores do próprio filho? Acabamos por descobrir que ela era igualmente estuprada, revelando o óbvio, que a monstruosidade de David, interpretado por Hugo Weaving, que nos dá calafrios sempre que aparece na atração, atinge a todos a sua volta.

Há uma dinâmica assombrosa entre o trio. Um cenário desolador que parece, ao mesmo tempo, tão fácil e difícil de se desvencilhar. Há uma verdade tão triste nas passagens, resultado de um trabalho que só poderia ser escrito por alguém que consegue compreender as próprias angústias.

Outro elemento de forte impacto na história é a comunidade. A alta sociedade britânica é revelada como hipócrita, alheia à verdade, cruel de muitas formas, doente ao permitir atos nefastos pelos quais ninguém deveria passar. A crítica atinge inclusive a realeza, representada pela princesa Margaret (Harriet Walter).

A verdade é que a barreira entre mochinho e vilão nunca é tão clara. Patrick, após tanto sofrer, começa a mostrar comportamento que faz a esposa e os filhos sofrerem. Queria tanto distanciar-se do pai e acaba também machucando, mesmo que de outra forma, as pessoas que deveria proteger.

A jornada em busca de paz é longa e árdua. Enfrentar os demônios internos definitivamente não é nada fácil. Outra produção que demonstra muito bem isso é The Tale, telefilme da HBO que fez grande sucesso em sua estreia no Festival de Sundance.

O abuso infantil é um tema com destaque nesta temporada de premiações. É preciso revelar verdades que machucam e, felizmente, a ficção está cada vez mais empenhada com isso.

 

Nota (0-10): 9

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