Crítica The Tale: abuso e negação

Um dos destaques do Festival de Sundance, o telefilme The Tale, escrito e dirigido por Jennifer Fox, conta a história real de abuso infantil baseada na própria vida da realizadora. Adquirida pela HBO, a produção entrelaça momentos de quando Fox tinha apenas treze anos e foi levada a relacionar-se com um homem de quarenta, com cenas trinta anos depois, quando ela é forçada a deparar com a verdade.

Laura Dern dá vida à personagem principal, que reluta em aceitar o que de fato viveu. Dern, que foi indicada ao Emmy pelo papel e tem tudo para levar, mostra mais uma vez a força do seu talento. Ela, que recentemente foi muito premiada pelo trabalho realizado em Big Little Lies, internaliza essa dor de quem teve toda a vida adulta marcada por um acontecimento sobre o qual não tinha noção da gravidade quando ocorreu.

O aspecto que chama mais atenção na obra, sem sombra de dúvida, é a resistência de Jennifer em enxergar-se como vítima. O fato de ter permitido o contato sexual quando pequena faz com que tenha dificuldade em compreender o ato como estupro. Mesmo que a razão diga o contrário, pois era uma criança e não tinha poder de decisão sobre tal assunto, seu cérebro cria esse conflito interno para proteger-se de uma dor muito maior. A tarefa de entender a personagem reside nisto: você sofre menos ao vislumbrar o relacionamento precoce como algo para o qual já estava pronto e assim quis. Encarar a verdade faz com que você seja obrigado a lidar com isso – e Jennifer chega em um momento da sua vida que não há mais escapatória.

Nessa busca por sossego, visita Mrs. G (Elizabeth Debicki), mulher que era amante de Bill (Jason Ritter) e ajudava-o a dormir com as meninas. Uma das cenas mais impactantes do filme é quando G justifica seu ato cruel dizendo que ninguém a ajudou quando ela própria estava na posição em que estavam posteriormente as crianças abusadas. Isso é muito forte, triste e revoltante.

Só não mais revoltante, claro, que o que acontece com Bill, que molestou muitas outras meninas e, mesmo assim, teve uma vida tranquila e uma velhice sendo exaltado pelo seu trabalho para a comunidade.

Nesse cenário tão desolador, a atração traz desconfortos – dois deles não necessariamente eficazes. O primeiro diz respeito ao papel da mãe, interpretada pela maravilhosa Ellen Burstyn. Nettie Fox age com uma serenidade excessiva em alguns momentos. A calma da filha é compreensível, já que ela vive em estado de negação até então. Da mãe, que descobre toda a verdade, é estranha.

Outro ponto é as cenas de sexo. Questiono se há a necessidade de mostrar tão demoradamente o que aconteceu. É perceptível que há uma dublê maior de idade no lugar da criança. Todavia, isso não faz do momento menos aterrorizador.

De qualquer forma, é um aspecto que será encarado de maneira diferente por pessoas com sensibilidades distintas. O que não muda é a necessidade de colocar o tema em discussão. Vivemos em uma sociedade adoecida e hipócrita – e isso precisa mudar.

 

Nota (0-10): 8

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