Crítica The Handmaid’s Tale S2: cumplicidade feminina

Após uma primeira temporada espetacular, com aclamação da crítica e do público, The Handmaid’s Tale, série criada por Bruce Miller com base no livro homônimo da escritora canadense Margaret Atwood, está de volta para dar continuidade à missão de June Osborne (Elisabeth Moss), que busca fugir de um regime fundamentalista instalado, em um ano não muito distante, nos EUA.

Esse futuro distópico facilmente causa calafrios por ser tão palpável. Vivemos em uma realidade de retrocessos na qual já embarcarmos em um trem de horrores, agora basta saber o quão longe iremos rumo ao passado.

No enredo da produção televisiva, que ultrapassa o livro de origem, a população norte-americana desembarcou na parada mais longe possível. Vozes dissidentes são massacradas sem piedade, boa parcela das poucas mulheres férteis que restaram tornaram-se escravas sexuais, a violência e a repressão viraram marcas principais da política de um Estado teocrático.

Se no primeiro ano gastou-se bom tempo para a imersão nesse universo de agonia, neste segundo, que tem treze episódios, a história passa a avançar mais rapidamente – apesar de algumas caminhadas em círculo.

Para toda ação há uma reação. Assistimos a um crescimento da rede de resistência ao regime que está no poder, o que acaba gerando um recrudescimento da violência em resposta. Parte da crítica e do público reclamou de uma possível gratuidade de cenas pesadas, principalmente contra as mulheres. Considero compreensível e justificável o eventual aumento da carga de dor a ser mostrada, exceto por um fato específico.

Serena Joy (Yvonne Strahovski), esposa do comandante Fred Waterford (Joseph Fiennes), é uma das personagens mais interessantes por causa de seus atos ambíguos. Todavia, ao ser ela a pessoa a sugerir um estupro para ferir June, consigo ver isso como um excesso do roteiro. A passividade das esposas frente a ato tão horrível, assim como o papel de Lydia (Ann Dowd), faz sentido dentro do enredo pela mentalidade adotada de que é para um bem maior. Todavia, ver uma mulher ferindo outra intencionalmente de maneira tão abominável, sendo que elas por vezes já foram aliadas, causa estranheza.

A cumplicidade feminina, aliás, é o que mais marca este ano. Seja entre Serena e June, as esposas para com os maridos, as marthas contra o sistema. Para o bem ou para o mal, as mulheres desempenham papéis para além da superfície.

Entre elas está Emily (Alexis Bledel), que vai para um campo de concentração onde as mulheres trabalham até a morte. Bledel mereceu muito o Emmy do ano passado e a entrada para o elenco regular, de modo que até mesmo conseguiu ofuscar a presença de Dowd e está no páreo com Strahovski como a melhor personagem coadjuvante.

Sua dramaticidade se iguala a de Moss, que tem tudo para novamente ser um nome muito badalado na temporada de premiações. O único problema com June, assim como no ano anterior, é o número excessivo de cenas de choro e enquadramentos longos em primeiro plano, esvaindo a potencialidade de comoção devido à repetição.

Isso não quer dizer, entretanto, que a série esteja ruim. Os poucos pontos fracos não chegam perto do número de qualidades – como, por exemplo, fotografia e direção de arte excepcionais.

 

Leia a crítica de The Handmaid’s Tale S1

 

Para encerrar, é preciso falar sobre o ponto que causou mais alvoroço: a cena final. Não consigo entender toda a revolta causada. Diferentemente da fuga frustrada no avião, agora June vive em outro contexto. Antes a melhor forma de salvar a filha ainda no ventre era saindo. Agora, com ela já nascida, há a possibilidade de deixar com a amiga e tentar salvar a filha mais velha. A culpa é algo que nos corrói lenta e incansavelmente – e não consigo ver ela, enquanto mãe, com um mínimo de sossego para lutar de fora do sistema. Por falar nele, agora June sabe que há muitas pessoas lutando. Isso faz toda a diferença. Além do mais, não sabemos qual o seu próximo passo dentro de Gilead. Voltar para a casa de Waterford não parece uma opção. Ela vai viver como fugitiva? A decisão em si de ficar não me parece tão problemática. O que será feito daqui para frente é o que realmente dirá o quão acertada ou errada foi a jogada. Seja como for, sigo extremamente ansioso para assistir.

 

Nota (0-10): 9

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