Crítica Atlanta S2: violências cotidianas

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Aclamada pela crítica, a comédia dramática Atlanta, criada e protagonizada por Donald Glover, chega ao seu segundo ano. Vencedora de dois prêmios no Globo de Ouro e dois Emmys, a produção continua demonstrando brilhantismo nesta temporada, que tem onze episódios perfeitos ao comporem um mosaico de peças distintas, mas complementares.

A continuação da história ganhou o subtítulo de Robbin’ Season, período que antecede o Natal e é caracterizado pelo aumento exponencial de roubos em Atlanta, cidade que dá título à obra. O tom adotado já fica claro na impactante cena de abertura: um assalto que acaba com troca de tiros e uma mulher inocente atingida.

Assim como na música This is America, lançada recentemente por Glover – também conhecido como Childish Gambino – e que virou um fenômeno por sua crítica e mistura de referências, Atlanta aborda a nefasta adoração dos norte-americanos por armas.

É muito fácil ter uma pistola. É igualmente fácil tirar vidas como se isso fosse completamente irrelevante. Há uma banalização da existência, associada ao racismo e a outras discriminações, que desumaniza a sociedade.

A série é permeada do começo ao fim por temas fortes, mesmo em seus momentos aparentemente mais descontraídos. Para abordá-los, conta com um time de personagens protagonistas que funcionam muito bem com suas particularidades.

Earnest ‘Earn’ Marks (Glover) vive tenso. Sabe muito bem que está aprendendo a fazer o seu trabalho e isso pode não ser o suficiente. Ele não conhece as regras do jogo e precisa ser ágil e esperto para não ficar desempregado. Continua sem ter uma casa sua, apesar desse aspecto ser deixado um pouco de lado, e seu relacionamento com Van (Zazie Beetz) não vai bem. Ela, assim como ele, representa uma geração sem foco e sem perspectiva. Deixa-se levar e faz o possível para criar a filha, mesmo que não tenha dinheiro para colocá-la em uma escola particular, por exemplo.

Se o casal continua com bom desempenho, quem é o grande destaque é Alfred ‘Paper Boi’ Miles (Brian Tyree Henry). O personagem, que na primeira temporada dificultava certa ligação com o público, definitivamente nos conquista agora. Viver a fama, que é o sonho da maioria, não é assim tão agradável para ele. Seu olhar transmite um cansaço, talvez até depressão, e os fãs não estão preocupados com isso. No magnífico episódio Woods, ele é roubado, precisa esconder-se na floresta para não morrer e, apesar de estar completamente destruído ao chegar numa loja de conveniência, um garoto pede para tirar uma fotografia. Henry provavelmente será indicado a prêmios, até mesmo porque seu choro de desespero é tão terrivelmente real, tanto que em determinado momento parece que desistirá de tudo.

 

Leia a crítica de Atlanta S1

 

Outro episódio que precisa ser mencionado é Teddy Perkins, um trabalho fenomenal. Darius (Lakeith Stanfield) vai buscar um piano que está para doação e depara com uma figura peculiar vivida por um Glover tapado por quilos de maquiagem. O capítulo tem um ar assustador que lembra Get Out – que, coincidência ou não, tem Stanfield no elenco – e faz referência à vida de Michel Jackson, além de mencionar muito Stevie Wonder. Esta passagem deve garantir um segundo Emmy de atuação para Glover, que dá arrepios, além de outras tantas indicações para as outras categorias. É a prova máxima do quanto Atlanta sabe transitar por diferentes gêneros de maneira sólida.

Se no primeiro ano a produção mostrou-se uma grande surpresa, agora ela chega para consolidar-se como uma das melhores da TV.

 

Nota (0-10): 10

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