Crítica American Crime Story S2: repressão e mentiras

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Após uma primeira temporada de grande sucesso com o público e a crítica, a antologia American Crime Story volta para abordar uma nova história baseada em fatos reais. Em seu segundo ano, que tem nove episódios e recebeu o nome de The Assassination of Gianni Versace, a produção reconstitui a morte do famoso estilista italiano Versace pelas mãos de Andrew Cunanan.

A partir do livro Vulgar Favors: Andrew Cunanan, Gianni Versace, and the Largest Failed Manhunt in U.S. History, de Maureen Orth, a atração invade a intimidade dos principais envolvidos no caso. Para isso, chamou um time de peso: Édgar Ramírez (Gianni Versace), Darren Criss (Andrew Cunanan), Ricky Martin (Antonio D’Amico) e Penélope Cruz (Donatella Versace), além de ótimas participações especiais, como a sempre formidável Judith Light (Marilyn Miglin). Sem sombra de dúvidas, as brilhantes atuações são o grande trunfo da produção, que é enfraquecida por um roteiro aquém do esperado.

Apesar de toda a publicidade em torno de Versace, o verdadeiro grande protagonista é Criss e seu Cunanan – Ramírez, Cruz e Martin nem mesmo aparecem em muitos episódios, o que é uma pena. O enredo não sabe equilibrar as participações e não entende que, para quem não recorda a história do estilista, seria interessante aprofundar outros aspectos de sua vida. Sem contar que Ramírez e Cruz entregam performances dignas de serem premiadas. Provavelmente serão lembrados como coadjuvantes, enquanto Criss brilhará na categoria principal. Para quem conheceu o ator em Glee, é uma grande surpresa ver o quão bem ele se sai no papel. Não que ele fosse ruim no musical juvenil, bem pelo contrário. Todavia, era um personagem que exigia carisma e canto, mas não tantas camadas quanto Cunanan.

Com o serial killer, Criss precisa – e consegue – seduzir, causar calafrios e transparecer o quão solitário ele é. Todas as mentiras contadas pelo seu personagem são resultado de uma criação muito longe da ideal. Sua rede de relações em busca de amor forma um quadro que revela o grande enredo que vale muito ser assistido: a repressão contra gays, a LGBTfobia em nossa sociedade, a dificuldade da aceitação.

Jeffrey Trail (Finn Wittrock) e David Madson (Cody Fern), ao lado dos protagonistas, dão uma boa dimensão do assunto. Soma-se a eles Ronnie (Max Greenfield), responsável pelo melhor diálogo da temporada. Este, quando interrogado, fala sem medo sobre o desprezo que é obrigado a aguentar.

Se não houvesse tanto descaso da polícia por gays estarem envolvidos nos crimes, certamente Cunanan não teria ido tão longe. A produção faz muito bem ao deixar claro a parcela de culpa da força policial. É um desses itens que nos impossibilitam de dizer que o roteiro é ruim.

Nesse ponto, é preciso deixar claro que qualquer produção com envolvimento de Ryan Murphy dificilmente não merece ser conferida. Assim como em Feud, um dos seus mais recentes trabalhos, a atração é tecnicamente impecável, com direção segura, reconstituição de época que nos remete aos anos referidos e fotografia de encher os olhos.

Pode não ter a mesma regularidade de The People v. O. J. Simpson, mas The Assassination of Gianni Versace ainda está acima da média do que vemos na televisão.

 

Nota (0-10): 8

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