Artigo: SMILF é herege no ponto certo

Em dezembro do ano passado, após a primeira temporada de SMILF, comédia dramática criada e protagonizada por Frankie Shaw, receber duas indicações ao Globo de Ouro, o presidente da Liga Católica para Direitos Religiosos e Civis, Bill Donohue, disse em nota que a produção não merecia este reconhecimento, pois, entre outros argumentos utilizados por ele, objetifica as mulheres e destroça o cristianismo.

A notícia ligou um sinal de alerta no meu cérebro: preciso assistir a essa série logo. O que faria com que tão puros e bondosos religiosos se revoltassem de tal maneira com a atração, que, infelizmente, tem apenas oito curtos capítulos em seu primeiro ano, a ponto de darem-se ao trabalho de ir a público criticar uma obra de ficção?

Seria o fato de uma mãe solteira poder viver livremente a sua vida? Que ela tem libido e pode transar com quem bem entender? Que a religião nunca a salvou das agruras cotidianas, logo não quer batizar o filho e tampouco acredita no rebento divino? Que um padre da trama beija outro homem? Que já saímos da idade das trevas? Tudo isso junto?

De fato, há tanta verdade e transparência nos atos da comédia que pode assustar aos mais pudicos. Todavia, tirando uma cena na qual a protagonista inicia ato sexual com um homem qualquer sendo que a criança está dormindo ao lado na cama, algo um tanto perturbador para quem nunca viverá as sutilezas da maternidade, não há muito com o que se espantar.

A produção é mais uma de uma safra que tem, por exemplo, Orange Is the New Black, Insecure, The Marvelous Mrs. Maisel e Transparent, trabalhos liderados por mulheres fortes, a verdadeira figura do diabo para aqueles que não sabem nem ao menos lidar com suas inseguranças.

SMILF é o banho de água fria quando percebemos que somos apenas mais um em busca daquele sonho de infância – que tem chances mínimas de se concretizar. É o choque de realidade de uma vida adulta conduzida pelo dinheiro – a falta dele, para ser mais específico. É o suspiro de alegria quando o elo tido como mais fraco se engrandece e prova o óbvio – que é ter capacidade semelhante.

Isso é motivo para que alguém tema o fim dos tempos? Claro que não. Entretanto, temem. O apocalipse não é zumbi, muito menos pragas espalhadas pela Terra, ele é a figura feminina deixando de ser submissa. Teme-se não o cair de bolas de fogo do céu, mas a erupção de vulcões de desejo e de direito ao próprio corpo.

Como controlar a massa se ela consegue pensar por conta própria? Essa é a pergunta feita, feita novamente, insistentemente repetida por quem está acuado pelo futuro. Por quem não quer dividir o direito de fala.

SMILF é a voz que passa a ser ouvida após muito tempo ignorada. O grito que ecoa, bate contra a montanha e é rebatido pelo medo. Um motivo a mais para termos certeza de que há TV de qualidade.

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