Crítica The Sinner: traumas e seus reflexos

Uma jovem mulher que se preocupa com o marido e o filho pequeno, está indo bem no trabalho e leva uma vida aparentemente tranquila. Certo dia, durante passeio no lago, escuta uma música que a perturba, dirigi-se até o casal próximo a ela e mata o homem golpeando-o repetidas vezes com uma faca até então utilizada para descascar fruta.

Em seu episódio inicial, de um total de oito, a série limitada The Sinner, criada por Derek Simonds com base na obra de Petra Hammesfahr, apresenta a história sem revelar muito dela, mas também ser perder tempo. Em poucas cenas, temos a compreensão da atual realidade vivida pela personagem principal – e nos resta mergulhar no seu passado para entender o porquê dela ter uma reação tão violenta.

A protagonista, Cora Tannetti, é interpretada de maneira segura por Jessica Biel, que já deve ter seu lugar garantido entre as indicadas ao prêmio de melhor atriz em sua respectiva categoria. Biel entende as nuances de alguém que cresceu em um ambiente repressor, sofreu diversos traumas e é consumida pela culpa.

Pena que seu talento nem sempre é explorado da maneira correta pela direção. Assim como Elisabeth Moss, que recentemente levou um Emmy pela atuação em The Handmaid’s Tale e teve sua dramaticidade permeando quase todas as cenas da atração de maneira um tanto exagerada, Biel reage de forma emotiva e dificilmente termina um diálogo sem chorar. A repetição tira parcela da eficácia do ato. Seria muito mais poderoso dar vazão à sua dor em momentos-chaves. E não falta, vale ressaltar, passagens propícias para ápices dramáticos. Não apenas nas cenas após a prisão de Cora, mas também durante o desenrolar de sua vida até chegar lá.

Enid Graham entrega um ótimo trabalho com a figura odiosa de Elizabeth Lacey, religiosa que transforma a infância de suas duas filhas, Cora e Phoebe (Nadia Alexander, já na versão adulta), em um pesadelo. Esta, que é enferma e cresceu enclausurada, cria uma dependência enorme da irmã, única amiga que tem. Cora acaba tendo que suprir todas as necessidades de interação da colega de quarto, o que resulta em situações controversas.

Há dois principais pilares de sustentação da história. De um lado, a religião. Do outro, o sexo. Para alguém que não tem religião alguma e, consequentemente, livrou-se do conceito de pecado, é interessante analisar de que forma isso opera na mente das pessoas, causa-lhes dor.

A proibição do desejo é tema central não apenas na vida de Cora. Harry Ambrose (Bill Pullman), que investiga a história e quer saber o que levou a protagonista a matar alguém, também precisa lidar com seus impulsos sexuais no decorrer da trama. Com sua esposa, de quem está distante há tempos, não há mais tesão. Seu prazer é saciado com Sharon (Meredith Holzman), que realiza suas fantasias sexuais.

A subtrama voltada para ele inclusive ajuda a construir uma segunda temporada estruturada principalmente ao redor da sua participação. Devido ao grande sucesso do primeiro ano, discute-se uma possível continuidade de alguma forma – uma boa notícia, claro.

The Sinner não foge da fórmula para este tipo de atração. Você sabe muito bem que é um quebra-cabeças com verdadeiras e falsas pistas que vão montando o quadro geral. Todavia, faz isso de forma muito satisfatória e entrega um episódio final que não decepciona.

 

Nota (0-10): 8

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