Crítica Insecure S2: os defeitos de Issa

Aclamada pela crítica e com audiência crescente em sua segunda temporada, a série de comédia dramática Insecure, criada por Issa Rae, que também protagoniza, e Larry Wilmore, mostra a rotina de uma mulher negra norte-americana que precisa aprender a lidar com o amor, o racismo, os ex-namorados e todas suas inseguranças.

Sem uma visão romantizada dos fatos, a produção traz um ponto de vista cru sobre uma realidade muitas vezes invisibilizada. De forma mais perceptível neste segundo ano, que tem oito episódios, assim como o primeiro, os personagens são imperfeitos e erram, erram novamente e repetem outras tantas vezes o erro.

Toda atração só é realmente válida quando nos faz pensar, suscita discussões. Nesse quesito, Insecure é realmente formidável. Ela tem tanta importância ao falar sobre a comunidade negra quanto a premiada Atlanta, de Donald Glover.

Há muitas cenas de pessoas brancas mostrando um racismo que muitas vezes se manifesta em pequenos atos que podem passar despercebidos para quem não é vítima. Há também, e isso é ótimo, uma autocrítica que muitas pessoas não estão dispostas a fazer.

Rae não tem medo de tornar sua personagem vilã ao relevar um gravíssimo racismo cometido por um diretor negro contra crianças latinas. Sua colega de trabalho, Frieda (Lisa Joyce), que é branca, percebe a situação e quer agir. Nesse momento, entre em cena a discussão da possibilidade do oprimido ser opressor.

A ação se desenrola no decorrer da temporada e, apesar de não ser o ponto central da obra, provavelmente é sua maior contribuição para uma discussão necessária. Há LGBTs machistas e racistas, mulheres LGBTfóbicas e racistas, negros LGBTfóbicos e machistas etc.

É só olhar ao seu redor para perceber que vivemos num mundo onde ser vítima de preconceito não nos livra de propagar ou relevar outras opressões. Infelizmente, nem sempre somos capazes de usar o próprio sofrimento como forma de amadurecer o respeito à diversidade.

Outro ponto digno de debate é a reação furiosa da personagem principal ao receber um jato de esperma no rosto durante o sexo oral. Perguntas vindas de um homem homossexual que considera saudável explorar possibilidades durante o sexo: as pessoas heterossexuais não são tão adeptas a sexo oral? Por que seria de alguma forma humilhante receber, intencional ou acidentalmente, esperma no rosto durante ato sexual consentido?

Essa passagem soou realmente muito curiosa. Ao menos pra mim, foi incompreensível todo o drama posterior ao fato. Todavia, entendo que tenho vivências diferentes e deva faltar uma compreensão maior do quadro.

Também é curioso que a atração traga duas mulheres brancas que querem transar com Lawrence (Jay Ellis) e tenham uma visão do homem negro que estará sempre pronto para saciar seus desejos, com um apetite sexual à prova de falhas. Entretanto, nunca se afasta dessa visão em outros casos, inclusive foge da discussão sobre homossexualidade, deixando como contribuição apenas uma conversa bem homofóbica e de ponto de vista lamentável das protagonistas que ocorreu no ano anterior.

De qualquer forma, o roteiro serve para abordar as situações de maneira condizente com a realidade e os atores dão conta do recado. A entrada de Natasha Rothwell, que interpreta Kelli, para o elenco fixo é excelente, já que ela é a personagem mais engraçada da série. Ainda tivemos espaço para participações especiais como a de Sterling K. Brown, estrela de This Is Us. Um ótimo time de profissionais que dão gás para mais uma ótima produção da HBO.

 

Obs: a relação dos protagonistas com a produção fictícia que passa na TV é bem engraçada e lembra muito um caso semelhante em Dear White People.

 

Nota (0-10): 8

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