Crítica BoJack Horseman S4: uma série assustadoramente humana

Ele é um ator que vive do passado, alcoólatra e usuário de drogas mais pesadas. Não consegue manter um relacionamento saudável com ninguém e já perdeu as contas de quantos seres próximos a ele já machucou. Tem uma relação conflituosa com a mãe esquizofrênica e não faz a mínima questão de esconder seu desejo de maltratá-la, uma espécie de retribuição à falta de carinho em sua criação.

O protagonista de BoJack Horseman, animação da Netflix criada por Raphael Bob-Waksberg, é composto de sentimentos incrivelmente humanos e vive numa sociedade que escancara muitos problemas do nosso cotidiano. Há apenas um detalhe: BoJack é um cavalo – e ele está cercado não apenas por pessoas, mas gatos, cachorros e todos os outros animais que você consegue imaginar.

Em sua quarta temporada, a série mantém um humor mordaz e potencializa dramas já visitados no passado. Faz tudo isso apostando não apenas na figura do personagem-título, mas em todo o elenco formidável.

O primeiro episódio, que não conta com a participação de BoJack (voz de Will Arnett, no original), prova que a atração consegue se sustentar muito bem com o time de coadjuvantes. Mr. Peanutbutter (Paul F. Tompkins) é de longe o personagem mais carismático e em vários momentos rouba completamente nossa atenção para si. Sua corrida eleitoral insana nos divertiu muito e serve como um ótimo contraponto às subtramas de tom mais pesado.

Todd (Aaron Paul) finalmente falou com todas as letras que ele é assexual. A assexualidade dele inclusive ganhou um espaço bem maior do que eu esperava – algo obviamente positivo, já que é difícil ter personagens com semelhante abordagem. O mais próximo disso que recordo num primeiro momento é o Sheldon (Jim Parsons), de The Big Bang Theory, que foi atingido pelo raio heteronormativo.

Princess Carolyn (Amy Sedaris), que é uma gata, teve de lidar com o preconceito da família do companheiro, que é um rato, e a dor de ter um quinto abordo espontâneo. O capítulo contado por uma descendente – fictícia? – dela foi de uma sensibilidade muito bonita.

Carolyn ainda se junta à Diane (Alison Brie) para explorar o machismo em nosso mundo. Parlamentares preferem, por exemplo, banir armas de fogo nos EUA, onde as pessoas têm verdadeira adoração por elas, a tentar terminar com a desigualdade de gênero.

O recado foi bem claro, um verdadeiro soco no estômago que muitas produções não têm coragem de fazer tão explicitamente. A arte serve principalmente para questionar e transgredir, algo feito exemplarmente aqui.

 

Leia a crítica de BoJack Horseman S3

 

Voltando a falar sobre BoJack, a adição de sua irmã deu vida a um arco interessante. Já o capítulo Time’s Arrow, focado em sua mãe, Beatrice (Wendie Malick), foi brilhante. A atração retratou um quadro que não sei o quão condizente com a realidade é. Todavia, imagino que sejam feitos estudos antes de escrever sobre tema tão delicado.

Também tivemos participações mais que especiais neste ano, como de RuPaul, que viveu uma rainha maravilhosa, e Felicity Huffman, apresentadora de um reality show de gosto meio duvidoso.

Logo, a animação se consolida como uma das produções mais consistentes da Netflix. Que continue a nos fazer refletir por muitas outras temporadas.

 

Obs: alguém mais achou perturbador ver Diane e Mr. Peanutbutter transando?

 

Nota (0-10): 9

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