Especial: suicídio e mídia

Bullying, violência verbal e física, isolamento. Após uma sucessão de situações dolorosas, Hannah, protagonista da série 13 Reasons Why, tirou a própria vida. Antes disso, a personagem gravou sete fitas explicando os motivos para chegar a tal ponto. A partir de sua narração, o telespectador acompanha, ao lado de Clay, a sua história – passando por cenas explícitas de estupro e suicídio.

Desde sua estreia, a atração, que foi adaptada por Brian Yorkey com base em romance homônimo e está disponível no catálogo da Netflix, gerou polêmica. Seria essa a melhor abordagem sobre assunto tão delicado?

Em Beyond the Reasons, especial com entrevistas do elenco, da equipe de produção e de profissionais de saúde mental, Yorkey explica as escolhas mais controversas: “queríamos que fosse doloroso de assistir para deixar claro que não há nada que vale a pena no suicídio”.

Jay Asher, autor do livro que deu origem à produção televisiva, defendeu a exibição da morte de Hannah, interpretada por Katherine Langford, em entrevista à revista Entertainment Weekly. “Eles sentiram que é preciso mostrar o quão horrível realmente é”, argumentou.

Vivian Roxo Borges, professora de psicologia da PUCRS com mestrado no tema, considera que mostrar uma cena de suicídio, no entanto, pode ter um impacto mais negativo do que positivo. “Acho desnecessário mostrar, principalmente levando em conta o público que atinge. O jovem pode usar isso como modelo de identificação”, esclarece.

Sua crítica não é isolada. Após ler um texto do crítico Pablo Villaça, no qual ele recomenda que as pessoas não assistam à série, a jornalista Marcela De Mingo pesquisou sobre o assunto e elencou seis motivos para não ver 13 Reasons Why: a atração vai contra as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS); ignora o Efeito Werther; é sobre vingança; está repleta de gatilhos; vê o suicídio como opção; e não oferece uma saída.

“Por mais que eu entenda o posicionamento da série de mostrar como as atitudes de cada pessoa podem levar alguém a cometer o autoextermínio, é complicado fazer isso sem levar em conta todo esse histórico de doenças mentais e criando a ideia de que existem culpados”, opina.

Em publicação no Facebook, Luís Fernando Tófoli, professor de psiquiatria no curso de medicina da Unicamp, destaca que por mais que seja excelente a premissa de discutir a crueldade cotidiana dos jovens e como isso pode nos afetar de maneira devastadora, a produção acaba fazendo provavelmente um desserviço maior do que sua beneficência.

 

Dor real

 

Nina Spim, estudante de 25 anos, nunca foi religiosa. Mesmo assim, na fase mais difícil da sua vida, conversava com alguma força superior antes de dormir. Precisava desabafar com alguém, mesmo que invisível, pois a dor que sentia era tão intensa que achava que não ia aguentar.

Em 2015, uma soma de fatores fez com que sua fobia social piorasse. A ansiedade aumentou e os ataques de pânico se tornaram frequentes. Apesar dos problemas, tentava prosseguir com as atividades normalmente: “como estava me sentindo não refletia no que estava fazendo. O problema não é o jeito como você leva a vida. É como se sente por dentro”.

Aos poucos, a situação ficou mais grave. Nunca chegara a planejar a própria morte, mas queria morrer. “Eu não sentia vontade de viver, pensei que era melhor morrer”, recorda.

O ano passou e, em 2016, veio a segunda fase. A ansiedade transformou-se em um quadro de depressão. Nessa época, leu Por lugares incríveis, romance de Jennifer Niven. “Salvou a minha vida, foi quando procurei ajuda”, enfatiza.

Ela foi ao Centro de Atenção Psicossocial (CAP) da universidade onde estuda. Fez duas sessões de terapia. Na primeira, chorou muito. Na segunda, não achou que estava funcionando. Ligou para pedir que fosse atendida por outro profissional, mas nunca mais teve retorno e acabou desistindo.

Cerca de dois meses depois, encontrou uma forma de melhorar por meio da meditação. Desde então, todos os dias, separa dez minutos para relaxar. Para isso, conta com o auxílio do aplicativo de celular Pacifica.

Nina assistiu aos episódios de 13 Reasons Why e defende a produção: “vejo que o seriado funcionou mais para pessoas que já tiveram esse momento. As pessoas estão sendo críticas porque elas não conseguem entender”.

A jovem não enxerga a abordagem como sendo romantizada ou de vingança. Por mais que não tenha conseguido assistir à cena do suicídio, pois era como se ela própria estivesse sentindo aquela dor, considera-a importante. “É uma cena que você não quer repetir em você. Quem já teve esses pensamentos sabe que não é uma opção”, explica.

 

Pedidos de ajuda

 

Após a estreia da série, o número de e-mails com pedidos de ajuda recebidos pelo Centro de Valorização da Vida (CVV) subiu 455%. Entre 1º e 10 de abril, a entidade registrou 1.840 mensagens, ante 635 no mesmo período de março.

Também houve alta no número de visitantes únicos no site. A média diária de 2,5 mil visitantes saltou para 6.770 neste mês.

Em entrevista ao Nexo, o professor de psiquiatria Tófoli alerta, entretanto, que a única maneira de saber se a atração teve um impacto na taxa de suicídios é através do acesso aos dados dos municípios, difíceis de levantar. “Só vamos saber daqui uns dois, três anos”, afirma.

 

Exposição nos diversos meios de comunicação

 

Para a professora Vivian Roxo Borges, a mídia, que tem papel fundamental no combate ao suicídio, peca ao abordar a questão de maneira muito glamourizada: “não conheço, no Brasil, trabalho que aborde as doenças mentais e as perspectivas mais preventivas”.

Marta Gleich, diretora de Redação dos jornais do Grupo RBS, acredita que o suicídio é um tema, a exemplo de outros problemas de saúde, que deveria ser mais abordado. Todavia, para ela, a Netflix não está fazendo a série porque a imprensa deixou um vácuo.

Em reportagem especial do caderno DOC, de Zero Hora, durante o último Setembro Amarelo, por exemplo, o veículo trouxe um extenso material a partir de um dado alarmante: o Rio Grande do Sul lidera os registros de suicídio no país, com 10,4 casos a cada 100 mil habitantes – o dobro da média nacional.

No dia a dia, ZH leva em conta as diretrizes do Guia de Ética e Autorregulamentação Jornalística do Grupo RBS, ao qual o jornal pertence. “Atos de suicídio ou de automutilação só devem ser noticiados quando envolverem pessoa pública, caracterizarem o comportamento de determinado segmento social ou tiverem provocado forte impacto na comunidade. Mesmo nestes casos, deve-se evitar detalhar as razões do ato e, sempre que possível, agregar informações de orientação ao público, ouvindo-se especialistas que possam ajudar na prevenção”, determina o documento.

Maria José Braga, presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), lembra que durante muitos anos havia uma regra tácita de não divulgar suicídios, pois acreditava-se que isso provocaria novos casos, um reflexo da onda de suicídios provocada pela publicação do romance Os sofrimentos do jovem Werther, de Johan Wolfgang von Goethe, na Alemanha do século 18.

Na atualidade, entretanto, não há a aplicação dessa regra e os casos são divulgados segundo a avaliação de interesse público. “É claro que existem excessos por parte de muitos veículos de comunicação, mas não estão restritos a essa questão. Quando há sensacionalismo e desrespeito aos valores humanos, não é somente na divulgação de casos de suicídio. É uma prática adotada como linha editorial”, elucida Braga.

 

Dados alarmantes

 

No Estudo de ideação suicida em adolescentes de 15 a 19 anos, conduzido por Vivian Roxo Borges e Blanca Susana Guevara Werlang, em 2006, durante o mestrado, em escolas públicas e particulares de Porto Alegre, constatou-se que dos 526 adolescentes da amostra, 36% apresentaram ideação suicida. Destes, 36% apresentaram sintomas de depressão e 28,6% de desesperança (moderada e/ou grave).

Conforme informações da OMS, cerca de 800 mil pessoas morreram por suicídio no mundo em 2012. A cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio, e a cada três segundos uma pessoa atenta contra a própria vida.

O Brasil é o oitavo país em número absoluto de suicídios. Em 2012 foram registradas 11.821 mortes, cerca de 30 por dia, sendo 9.198 homens e 2.623 mulheres.

De acordo com o Mapa da Violência, que se baseia em dados coletados pelo Ministério da Saúde, as faixas em que as taxas de suicídio mais cresceram no país, entre 2002 e 2012, foram as dos 10 aos 14 anos (40%) e dos 15 aos 19 anos (33,5%).

“O aumento do índice no Brasil está relacionado a uma série de fatores, como situações de desesperança e aumento de transtornos mentais”, afirma Borges, que também destaca fatores regionais e, mais recentemente, o momento de crise.

A profissional ressalta que esse é um tema tabu e pouco explorado. O papel da mídia é tratá-lo de uma forma responsável, sem romantizar a situação. É preciso abordar os fatores de risco, dizer que tem como procurar ajuda e, sobretudo, que há tratamento. “Não se tem controle sobre a vida do outro, mas tem como prevenir. Se a pessoa se sente cuidada, conectada com alguém, já pode ser um fator protetivo para não desistir. A gente tem que lutar para o suicídio não ser uma possibilidade”, enfatiza.

“O papel dos meios de comunicação e dos jornalistas é tratar da questão como de fato ela é: um problema de saúde pública. Em vez de noticiar casos de suicídio, noticiar as ações de combate e prevenção, os serviços de apoio psicológico existentes. Abordar as causas, assim como em tantos outros problemas sociais, e como combater e prevenir”, destaca Maria José Braga.

 

Como buscar ajuda

 

Centro de Valorização da Vida

www.cvv.org.br

facebook.com/cvv141

 

Texto: Douglas Roehrs

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