Crítica Atlanta S1: uma voz do futuro

A televisão mudou. O homem cisgênero, heterossexual e branco ainda é protagonista. Todavia, não é o único. Mulheres, negros, LGBTs e demais oprimidos ganham espaço na ficção. Por mais que, no nosso dia a dia, o passado nos assombre, esteja disposto a ser presente, a cultura resiste. A pluralidade de vozes pede por mudanças, quer um futuro melhor.

Nesse contexto, no qual uma realidade cotidianamente marginalizada ganha holofotes, nasce Atlanta, série criada e protagonizada por Donald Glover. No enredo, Earnest “Earn” Marks, seu personagem, resolve agenciar o primo Paper Boi (Brian Tyree Henry), cantor de rap e traficante de drogas.

É, assim como Empire e Black-ish, desenvolvida e estrelada por negros – o que, artisticamente falando, faz toda diferença. São suas realidades na tela. A própria voz sendo ouvida, e não a de terceiros.

Earn, por mais que seja muito inteligente, vive uma situação difícil. Sem o apoio dos pais, sem dinheiro, sem ter uma casa para morar. Acaba passando muitas noites com Van (Zazie Beetz), mãe de sua filha e melhor personagem do primeiro ano, que é dividido em dez capítulos de meia hora.

A atração acerta ao falar, sem pudor, sobre a marginalização da cultura, o uso de drogas, o preconceito e como ele opera na sociedade. Em um dos melhores trechos, um homem branco, durante discussão, é condescendente com a fala do protagonista, que fica irritado com isso. É interessante analisar as nuances do que é respeito e o que é, de certa forma, uma prepotência escondida num discurso de reparação.

O trabalho tem sua qualidade elevada ao inserir músicas que, além de excelentes, encaixam perfeitamente nas cenas. Poucas séries, até mesmo as musicais, sabem unir tão harmoniosamente melodias e ações na tela.

A trilha espetacular passa dos ouvidos para os olhos um tanto melancólicos de Glover, que entrega uma boa performance, apesar de estar longe da dramaticidade de Jeffrey Tambor em Transparent ou da prazerosa loucura de Gael García Bernal em Mozart in The Jungle.

Pena seu Earn muitas vezes se tornar coadjuvante de Paper Boi, que não tem o mesmo carisma. Apesar de interessante, o cantor não tem uma história tão bem trabalhada. Além disso, é destaque no episódio mais emblemático da temporada: B.A.N..

O falso programa de entrevistas é uma ótima sacada. Entretanto, tocar em um problema muito grave, que é a transfobia, e logo após tirar sarro de um homem transracial é uma mistura equivocada de situações. Até que ponto o roteiro mostra que quem sofre preconceito também pode disseminá-lo e partir de onde faz o mesmo?

Fonte de muitas discussões, Atlanta é uma obra que, com seus problemas, aponta para o futuro.

 

Nota (0-10): 9

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