Crítica Rectify S4: esperança

Após passar quase vinte anos no corredor da morte, Daniel Holden – interpretado pelo excelente Aden Young – sai de sua cela estéril, monocromática, e finalmente pode apreciar pequenos prazeres que, para a maioria, são ordinários. No entanto, o que deveria ser um caminho de libertação, mostra-se uma história na qual uma prisão é trocada por outra.

Rectify, série criada por Ray McKinnon, acompanha a volta para casa de Daniel e os dramas diários da família Holden, que, como vaso que se espatifa no chão, tem cacos por todos os lados esperando para serem colados.

Durante a jornada, que durou quatro temporadas, uma grande pergunta sempre pairou no ar. Daniel realmente matou, quando jovem, a então namorada? A falta de respostas sempre foi um dos trunfos da produção, pois instigava assistir à história de um homem sem saber do que ele é capaz; tentar não julgá-lo por qualquer mínimo ato; perceber a reação de outros personagens ao seu retorno.

Mesmo que em diferentes níveis de Orange Is the New Black ou The Night Of, a série trouxe a brutalidade do sistema prisional – principalmente na última temporada, quando Holden, durante tratamento, lembrou passagens dolorosas de sua vida. Para além disso, expôs não somente o quão falha é a Justiça, como também o quanto seus representantes pouco se importam se cometeram erros ou não. É uma pena de exclusão perpétua condenar alguém em uma sociedade que não se preocupa em ressocializar quem esteve detido.

Nesse contexto, muito bem explorado pela atração, Holden tenta seguir em frente. Não apenas ele, toda a família. No último ano, a mensagem claramente foi de reestabelecer a esperança, mínima que seja, em uma vida melhor. Além do protagonista, Janet (J. Smith-Cameron) e Tawney (Adelaide Clemens) ganharam desfechos acertados. Todavia, o roteiro não foi tão generoso assim com Amantha (Abigail Spencer), Ted Jr. (Clayne Crawford), Jon (Luke Kirby), Jared (Jake Austin Walker) e Ted (Bruce McKinnon).

O roteiro, aliás, foi um dos poucos problemas de Rectify. Seu tom polido e contemplativo acabou tornando algumas cenas superficiais, quase falsas. É como se houvesse uma necessidade forçada de criar diálogos marcantes, o que acabou colocando todas as cenas em um mesmo patamar e, consequentemente, tirando a intensidade delas.

Além disso, nem sempre a trilha sonora se mostrou acertada. As composições transitaram entre a trivialidade, na maioria dos casos, e a estranheza, quando destoaram da cena, mostrando-se no mínimo desnecessárias.

Claro que isso não tirou o brilho da série, uma das mais ousadas e profundamente humanas já feitas. Foram quatro anos de questionamentos, reflexões. E, ao optar por dar indicativos do que aconteceu e viria a acontecer, sem necessariamente descortinar a história por completo, entregou-nos o melhor fim possível. A vida é dúvida.

 

Nota (0-10): 8

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1 comentário Adicione o seu

  1. Fernando disse:

    Concordo plenamente. Acompanhei Rectify durante estes quatro anos e só tenho elogios à fazer.
    Certamente este é o seriado mais “humano” que pude contemplar, destacando a atuação ímpar do ator Aden Young, bem como de todo o elenco.

    A única crítica, como já salientado, ficaria ao roteiro quanto aos citados atores coadjuvantes, uma vez que não se sabe o que ocorreu de fato, nem sequer houve indícios do que poderia ter ocorrido com estes. No entanto, tal fato não elide a grandeza da serie.

    Nota 8,7

    Curtido por 1 pessoa

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