Crítica Westworld S1: violência divina

No filme Westworld, de 1973, Michael Crichton nos apresentou um parque temático futurista. O visitante podia escolher entre três áreas: Roma antiga, Idade Média e Velho Oeste. Decidido, entrava num passado habitado por robôs fadados a repetir, dia após dia, as mesmas histórias invariavelmente marcadas pela dor. Os anfitriões, construídos pela empresa Delos, estavam lá para satisfazer os clientes, que buscavam saciar principalmente os desejos sexuais e de violência.

A trama, antes desenvolvida de maneira simples, ganha novos contornos na série homônima da HBO, criada por Lisa Joy e Jonathan Nolan. Já no primeiro episódio, a provável substituta de Game of Thrones mostra o seu potencial. A narrativa tem como fio condutor Dolores, anfitriã interpretada pela talentosa Evan Rachel Wood. Sua rotina é quebrada pelos devaneios que a permitem recordar fragmentos dos seus mais de trinta anos de vida.

A sua busca por compreensão se assemelha à nossa, e a história, que entrelaça linhas temporais distintas de maneira instigante, revela em máquinas boa parcela dos questionamentos humanos que tanto causam tormento.

O dom divino não vem de um poder superior, mas das nossas próprias mentes, diz Robert Ford (Anthony Hopkins). Na pintura A criação de Adão, de Michelangelo, Deus está envolto pelo que pode ser considerado o cérebro humano. O extraordinário nasce do ordinário e, caso explorado, pode estabelecer um novo padrão.

Afinal, este mundo nos pertence? A raça humana é, gostemos ou não, apenas uma vírgula em uma narrativa longa. Somos um ponto que, de tanto jorrar sangue, escorre pela folha e avança, de maneira tão torpe, até a linha seguinte.

Somos bons em exterminador nossos predadores, aniquilar inimigos. No entanto, nem sempre estivemos no topo e tampouco devemos reinar para todo o sempre; e a série nos proporciona vislumbrar uma possibilidade de queda na qual a criatura se insurge contra a raça que a criou.

A trama, para chegar ao seu ápice, é costurada de maneira cuidadosa. Os atores desempenham bem seu papel, conduzidos por belos cenários e embalados por uma trilha que é um atrativo à parte. A música composta por Ramin Djawadi já desperta curiosidade na abertura (confira abaixo). Além disso, não há como não sorrir com as versões para piano de canções como Back to Black e No Surprises.

Apesar dos inúmeros acertos, houve alguns pontos discutíveis. Maeve (Thandie Newton) certamente é a personagem mais forte, mas foi difícil aceitar o quão fácil conseguiu convencer Sylvester (Ptolemy Slocum) e Felix (Leonardo Nam) a fazer tudo o que ela queria.

Alguém mais ficou incomodado com o tempo que Dolores, William (Jimmi Simpson) e Lawrence (Clifton Collins Jr.) ficaram andando de trem? Está certo que o parque é enorme, mas aquilo não parecia fazer sentido.

Por mais que, quando revelada, a história do Homem de Preto seja interessante, sua jornada em busca do labirinto foi cansativa. De maneira geral, o meio do percurso não teve um ritmo tão fluído quanto o início e a reta final – o que é comum em boa parte das séries, diga-se de passagem.

A primeira temporada de Westworld mostrou que o divino é humano – com toda sua carga de beleza e de crueldade. Para o segundo ano, há muitos bons ganchos. Prazeres violentos têm finais violentos. Que este esteja apenas começando.

Nota (0-10): 8

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