Crítica The Crown S1: o silêncio da rainha

Qual o peso real da coroa? O quão difícil foi para Elizabeth II receber essa missão? Quais as tarefas da então nova soberana e como ela lidou com isso?

The Crown, série criada por Peter Morgan, mostra o cotidiano de uma rainha que também é esposa, mãe, irmã, filha. Muito além da política, a produção entra no Palácio de Buckingham para acompanhar os conflitos humanos de quem representa o divino. E faz isso com maestria. Do roteiro à direção, do elenco à fotografia, estamos diante de um trabalho que se iguala em qualidade com Game of Thrones. Ao contrário de Marco Polo, que não fez jus ao dinheiro investido, a nova obra da Netflix vale cada centavo gasto.

Os dez episódios da primeira temporada, escritos por Morgan, que já foi duas vezes indicado ao Oscar, abordam os primeiros anos de reinado de Elizabeth. Claire Foy, que ganhou destaque em Wolf Hall, interpreta com pleno domínio uma personagem que oscila entre insegurança, determinação e, por vezes, ciúme.

Para quem assistiu à série The Tudors, na qual Henry VIII tinha poder para fazer o que tivesse vontade, é no mínimo curioso acompanhar uma rainha que praticamente não toma decisão alguma.

A monarquia britânica atual não passa de um conto de fadas que sobrevive graças à tradição. Mesmo de forma polida, assim como a própria superficialidade da realeza, a produção evidencia que estamos diante de um passado imperialista que resiste. Em cena emblemática, Philip (Matt Smith) zomba da coroa de um nativo africano e acusa outro de roubo. Como se não fosse o suficiente, tem por costume se lamuriar pelas colônias perdidas.

Para o marido de Elizabeth, estar dois passos atrás dela não é nada fácil. Curvar-se diante da esposa é uma derrota – e a série acerta ao mostrar o machismo que ronda o cargo. Não apenas Philip, a política britânica, feita de velhos homens brancos, também tem dificuldade em aceitar o comando de uma mulher.

Nesse ponto, entra em cena Winston Churchill, personalidade mais interessante do primeiro ano. John Lithgow está simplesmente magnífico no papel. Por mais que seu personagem tenha um comportamento muitas vezes detestável, o ator interpreta de forma tão impressionante que seria agradável se estivesse em todas as cenas. Sua voz, seus trejeitos, a dor que carrega no olhar, estamos diante de uma das melhores performances do ano.

De maneira geral, o grupo de atores e atrizes principais se sai muito bem e traz diferentes nuances para a história. O drama da princesa Margaret (Vanessa Kirby), que não pode se casar com o homem que ama, diz muito sobre o quão difícil pode ser integrar a realeza. Ela inclusive confronta publicamente sua irmã, que tem dificuldade em lidar com situações delicadas.

De Elisabeth é esperado principalmente que fique calada – tarefa mais do que desafiadora. Seu silêncio traz consequências no desenrolar dos acontecimentos e é preenchido com a música de Rupert Gregson-Williams, que traz dramaticidade para as cenas sem se tornar piegas.

Aposta certa na próxima temporada de premiações, The Crown evidencia uma verdade um tanto sombria: a realeza é uma gaiola dourada. Seus componentes são seres expostos como animais de zoológico. Entretenimento para os demais mortais.

 

Nota (0-10): 10

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