Crítica Justiça: uma demonstração de maturidade artística

As minisséries da Globo sempre foram uma demonstração clara de que são feitas produções de alto nível no país. Entre a poesia visual de Hoje é Dia de Maria e o desejo latente de Amores Roubados, há uma infinidade de tramas construídas com esmero.

O apuro técnico sempre esteve aliado a roteiros afiados e a atores competentes, no entanto, a atração Justiça, de Manuela Dias, talvez seja a que melhor obteve três elementos fundamentais de maneira exitosa: vigor artístico, crítica social e resposta do público.

Na trama, quatro personagens são presos durante sete anos e, após serem libertados, acabam envolvidos de alguma forma em atos de vingança – executando, sendo cúmplice ou alvo.

Todas essas histórias se entrelaçam no decorrer dos vinte episódios, todavia, formam-se quatro núcleos, cada um protagonizando cinco capítulos. A ideia de ter cada dia da semana voltado para um dos conflitos, algo que poderia afugentar parcela dos espectadores, teve grande retorno, sendo que a audiência para o horário cresceu.

Na segunda-feira, entra em cena o crime passional que representa um dado alarmante no Brasil, o de mulheres que sucumbem nas mãos de seus companheiros. Na terça, uma desavença com a pessoa errada, que, sendo mais forte, abusa do seu poder. Na quinta, o racismo latente que insiste em ser relevado. Por fim, na sexta, uma vida despedaçada pela imprudência seguida de omissão de socorro. A partir daí, diversos personagens carregam consigo subtramas que enriquecem a série, como prostituição, corrupção e violência sexual.

As atuações marcantes de Debora Bloch, Leandra Leal, Drica Moraes, Camila Márdila e, em especial, Adriana Esteves, que encanta e emociona com sua Fátima, são potencializadas pela direção artística de José Luiz Villamarim, que tem no seu currículo, entre outros trabalhos, a nova versão de O Rebu.

O ponto mais frágil talvez seja o de maior sucesso: o desenvolvimento do enredo. Dias possivelmente bebeu demais na fonte na qual Shonda Rhimes e Ryan Murphy muitas vezes caem de cabeça. Priorizar mudanças constantes pode causar ruídos no pacto de credulidade feito com o telespectador. É fácil compreender que há um caminho a ser percorrido durante apenas 20 capítulos e, para isso, concessões devem ser feitas para as peças se encaixarem. Entretanto, isso nunca deve ser considerado como aval para soluções preguiçosas.

A mais grave e nada criativa foi o romance de Heitor, reitor da universidade, com a estudante Sara. Toda a sequência, desenvolvida num único capítulo, de conquista, transa e descoberta da traição, que culminou com Elisa nos braços de Vicente, foi digna dos piores folhetins. Menos graves, porém perceptíveis, foram as inúmeras coincidências, como a mãe que rapidamente é roubada pelo próprio filho, e algumas repetições de cenas que soaram desnecessárias.

São apontamentos que acabam não passando de solavancos em uma trajetória percorrida de maneira positiva. Que venham outros trabalhos como este para mostrar o Brasil para os brasileiros. Como o fim bem mostrou, a corrupção da alma, infelizmente, passa de pai para filho.

 

Nota (0-10): 8

1 comentário Adicione o seu

  1. Carina Pilar disse:

    Adorei a review! Acompanhei a série e compartilho da sua opinião. Adorei bastante o enredo, mas acredito que teve muito tempo perdido em repetições de cenas com a perspectiva de outro personagem, podiam ter utilizado para dar mais detalhes a outros fatos que aconteciam de forma repentina e sem explicação detalhada. Fiquei feliz em ver que isso diminuiu nos últimos capítulos. A Fátima foi a personagem que mais me prendeu, fiquei muito feliz em ver que ela teve um final feliz! 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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